Empresas norte-americanas, canadenses e australianas já reservaram mais de R$ 10 bilhões para projetos de terras raras e minerais críticos no Brasil, colocando o país como peça-chave na reconfiguração da cadeia mundial desses insumos — usados de smartphones a equipamentos de defesa. Especialistas, contudo, veem risco de o país repetir o velho modelo de vender minério bruto a preço baixo e importar componentes de alto valor agregado.
Reservas gigantes e projetos em Minas Gerais e Goiás
Com a segunda maior reserva global de terras raras, o Brasil abriga depósitos que combinam volume e viabilidade de extração. A Cabo Verde Mineração, no sul de Minas Gerais, identificou mais de 500 milhões de toneladas em 91 mil hectares de argilas iônicas, cujo processo de extração é menos complexo que o de rochas duras. Testes apontaram recuperação de até 81,7% dos óxidos.
Outros projetos previstos para entrar em operação entre 2027 e 2028 incluem: Colossus, em Poços de Caldas (MG), descrito como o maior depósito de argila iônica do mundo; o complexo de Barreiro, em Araxá (MG); e iniciativas da Atlas Critical Minerals em Minas Gerais e Goiás.
Atenção de Washington, Nova Déli e Seul
A Development Finance Corporation (DFC), agência de financiamento dos Estados Unidos, assinou acordo de US$ 565 milhões com a mineradora Serra Verde para expandir a mina Pela Ema, em Goiás — primeira operação comercial de terras raras no país. O caso foi apresentado como modelo na Reunião Ministerial de Minerais Críticos, convocada em fevereiro pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio.
No campo diplomático, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fechou, na Índia, acordo com o primeiro-ministro Narendra Modi voltado ao processamento de minerais críticos e uso de inteligência artificial para análises geológicas. Na Coreia do Sul, foram assinados dez memorandos de entendimento sobre minerais estratégicos e tecnologia. Já o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, esteve em Washington no início de fevereiro para defender parcerias que incluam transferência de tecnologia, a fim de evitar que o estado seja apenas exportador de matéria-prima.
Processamento é gargalo: China domina a cadeia
Enquanto o Brasil separa cerca de 20 toneladas anuais de óxidos de terras raras, a China processa 270 mil. “Ter o minério no chão é apenas 10% do desafio”, afirma Fernando Landgraf, da Escola Politécnica da USP. O químico Henrique Eisi Toma, do Instituto de Química da USP, lembra que a dificuldade técnica de separar elementos com propriedades muito semelhantes justifica o termo “raras” e exige tecnologias avançadas.
Juros altos e logística limitada freiam investimentos
Com a Selic em 15% ao ano em março de 2026, 69% dos executivos ouvidos pela Amcham Brasil apontam o desequilíbrio fiscal como principal risco aos negócios. Para Christopher Garman, diretor da consultoria Eurasia, a insistência de Brasília em cobrir déficits via arrecadação eleva o custo do capital e afasta investimentos produtivos.
Na infraestrutura, o Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos) calcula que o país transporta hoje 25% mais carga do que há dez anos utilizando praticamente a mesma estrutura. Segundo Thomas Gautier, CEO da transportadora digital Freto, sem modernização logística o Brasil seguirá espectador da transformação tecnológica.
Passado de tentativa frustrada ronda novo ciclo
Entre as décadas de 1960 e 1980, a Nuclemon processou areia monazítica para extrair terras raras, urânio e tório, mas fechou por falta de continuidade política e competitividade diante do mercado externo. O pesquisador Fernando Lins, do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), vê na reorganização das cadeias globais uma segunda chance — que dependerá de segurança jurídica, domínio tecnológico e ambiente macroeconômico favorável.
Com informações de Gazeta do Povo