A taxa de desemprego medida pelo IBGE caiu para 5,8% em fevereiro de 2026, o menor patamar para o mês desde o início da série histórica. O resultado, entretanto, coincide com a saída de milhões de pessoas do mercado de trabalho e com a ampliação da subutilização da mão de obra.
Participação menor distorce o indicador
O percentual da população em idade ativa que está empregada ou procura vaga recuou para 61,9% em fevereiro, ante 62,2% em novembro de 2025 e 63,9% antes da pandemia. Segundo cálculos do Itaú, se a taxa de participação estivesse na média histórica de 62,9%, o desemprego seria de 7,2%; no nível pré-pandemia, chegaria a 8%.
Subutilização ultrapassa 16 milhões
O contingente de trabalhadores subutilizados — grupo que engloba desempregados, subempregados e pessoas disponíveis que desistiram de buscar vaga — avançou de 13,5% para 14,1% entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026. O total passou a 16,1 milhões, acréscimo de 675 mil no período.
Transferências sociais influenciam decisão de trabalhar
Estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) aponta que, a cada duas famílias que recebem o Bolsa Família, uma abandona a busca por emprego. Na gestão atual, valores e número de beneficiários do programa, além do BPC e do Pé de Meia, cresceram significativamente.
Falta de qualificação trava a produção
Levantamento do Banco Daycoval indica escassez de mão de obra em oito de cada dez setores. Na indústria, a proporção de empresas que relatam falta de trabalhadores capacitados saltou de 5% em 2019 para 23% em 2024, conforme a Confederação Nacional da Indústria (CNI). A entidade estima que três em cada cinco empregados industriais precisarão de requalificação até 2027.
Com o mercado “apertado”, o Banco Central cortou a Selic somente 0,25 ponto percentual em março, para 14,75% ao ano — primeira redução em dois anos.
Informalidade resiste
A taxa de ocupação sem carteira, por conta própria ou em negócios familiares recuou de forma sazonal, de 37,7% no trimestre anterior para 37,5% em fevereiro, mas ainda soma 38,3 milhões de trabalhadores. Segundo o IBGE, a queda recente concentrou-se na construção civil e em segmentos menos formalizados de indústria e agropecuária.
Salários avançam mais que produtividade
Dados do Ibre-FGV mostram que a massa salarial ampliada cresceu acima de 4,5% em 2025, ritmo não acompanhado pela produtividade. No setor de serviços, intensivo em mão de obra, empresas repassam os maiores custos ao consumidor: a inflação de serviços fechou 2025 em 6%, acima da meta de 3%.
Mercado de trabalho deve continuar apertado em 2026
Projeções de pesquisadores do Ibre-FGV indicam taxa média de desemprego de 5,9% em 2026, com crescimento real da massa salarial novamente superior a 4,5%. A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil tende a fortalecer a renda disponível, mantendo a pressão sobre preços e juros.
Com informações de Gazeta do Povo