Brasília — O déficit acumulado das empresas estatais federais chegou a R$ 6,35 bilhões entre janeiro e outubro de 2025, de acordo com dados do Banco Central. A deterioração das contas, puxada principalmente pelos Correios, levou o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a decretar bloqueio de R$ 3 bilhões em despesas previstas no Orçamento.
O bloqueio retira recursos de ministérios e de áreas como saúde, educação e infraestrutura para compensar a piora do resultado operacional das estatais. A equipe econômica previa um déficit de R$ 6 bilhões para 2025 — abaixo do recorde de R$ 6,7 bilhões de 2024 —, mas o desempenho até agora já superou a projeção.
Correios concentram o rombo
Titular do monopólio de cartas e correspondências, a estatal encerrou 2024 com prejuízo de R$ 2,5 bilhões. Em 2025, a situação se agravou: o déficit ultrapassou R$ 4 bilhões no primeiro semestre e alcançou R$ 6 bilhões até setembro. Projeções internas apontam perdas de R$ 10 bilhões ao fim deste ano e de até R$ 23 bilhões em 2026.
Para conter a crise, a nova direção dos Correios aprovou, em 28 de novembro, um pedido de empréstimo de R$ 20 bilhões junto a um consórcio formado por Banco do Brasil, Citibank, BTG Pactual, ABC Brasil e Safra. Quatro dias depois, contudo, o Tesouro Nacional barrou a operação por considerar elevada a taxa de juros — 136% do CDI, cerca de 18% ao ano com a Selic em 15%.
Plano de reestruturação
Além do financiamento, a estatal anunciou um programa de redução de custos que inclui:
- Plano de demissão voluntária para até 10 mil dos 83 mil empregados;
- Venda de aproximadamente mil agências deficitárias;
- Alienação de imóveis estimada em R$ 1,5 bilhão;
- Parcerias e ajustes operacionais para reforçar a liquidez.
Metas fiscais em revisão
O governo enviou ao Congresso o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2026 com autorização para que as estatais registrem déficit de até R$ 6,75 bilhões. Como o texto ainda está em discussão, a meta pode mudar. Em ano eleitoral, o Executivo tenta evitar novas contenções de gastos.
Embora o eventual empréstimo aos Correios não afete diretamente o resultado primário — por ser classificado como operação financeira —, as futuras amortizações aumentariam as despesas, pressionando a meta fiscal.
Ceticismo e resistência à privatização
Especialistas como Marcus Pestana, diretor executivo da Instituição Fiscal Independente, avaliam que o aporte de R$ 20 bilhões não solucionaria o problema estrutural da empresa e defendem debater a privatização. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), rechaça a ideia e argumenta que serviços postais exigem subsídios estatais para garantir cobertura universal.
De acordo com o Banco Central, o déficit do conjunto de estatais monitoradas — que inclui Correios, Casa da Moeda, Hemobrás, Emgea, Emgepron, Infraero, Dataprev e Serpro, mas exclui Petrobras, Eletrobras e bancos públicos — subiu de R$ 286 milhões no mesmo período de 2023 para R$ 4,45 bilhões em 2024 e para os atuais R$ 6,35 bilhões. A Secretaria de Orçamento estima que o saldo negativo possa alcançar R$ 9,2 bilhões até dezembro.
A Diretoria Executiva dos Correios informou estar em diálogo com o Ministério da Fazenda e com a Casa Civil em busca de “alternativas que melhorem a liquidez imediata” e assegurem a continuidade dos serviços postais em todo o país.
Com informações de Gazeta do Povo