Brasília – Desde que assumiu a presidência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2023, o economista Márcio Pochmann enfrenta crescente desgaste interno que agora atinge o ponto mais crítico às vésperas da divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025, marcada para 3 de março.
Exoneração na área do PIB acende alerta
O estopim da crise foi a saída, em 19 de janeiro de 2026, de Rebeca Palis, coordenadora responsável pelo cálculo do PIB. Após a exoneração, ao menos três integrantes da equipe – Cristiano Martins, Claudia Dionísio e Amanda Tavares – entregaram seus cargos em solidariedade.
A movimentação levantou suspeitas de interferência nos dados econômicos, repercutidas nas redes sociais. Embora checagens independentes tenham classificado as acusações como enganosas, o episódio afetou a imagem de confiabilidade do órgão.
Sindicato defende autonomia técnica
A Associação dos Servidores do IBGE (Assibge) divulgou nota pública negando qualquer mudança metodológica nos levantamentos. “Os trabalhadores são guardiões da credibilidade do IBGE. Somos um órgão de Estado, e não de governo”, afirmou o diretor Paulo Lindesay.
Em 25 de fevereiro, servidores publicaram carta aberta relatando represálias internas e pedindo apoio à autonomia institucional, além de mudanças no processo de escolha da presidência.
Demissões em série alimentam tensão
A crise ganhou novo capítulo em 28 de janeiro, com a exoneração de Ana Raquel Gomes da Silva, gerente responsável pela revisão técnica de publicações. Um ano antes, ela denunciara suposta propaganda política do governo de Pernambuco no anuário “Brasil em Números”.
O sindicato acusa Pochmann de promover “caça às bruxas” contra quem questiona a gestão. Em novembro de 2025, cinco gerentes da Comunicação Social – Marcelo Benedicto Ferreira, Diana Souza, Ana Laura Azevedo, Adriana Saraiva e Irene Cavaliere Gomes – também foram dispensados sem aviso prévio.
Projetos contestados e falta de diálogo
Servidores reclamam de decisões unilaterais, ausência de planejamento estratégico e despreparo para conduzir projetos de grande porte. Entre os pontos de atrito estão:
- Fundação IBGE+ – proposta de fundação pública de direito privado lançada em julho de 2024. A Advocacia-Geral da União (AGU) concluiu, em novembro do mesmo ano, que a criação exigiria lei específica, e o registro foi suspenso.
- Contrato com o Serpro – firmado em meados de 2025 para o Programa Nacional de Inteligência e Governança Estatística e Geocientífica. Técnicos questionam a necessidade da parceria diante da estrutura interna já existente.
Histórico de controvérsias
A nomeação de Pochmann pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva foi criticada desde o início por economistas e parte do Executivo. Durante sua passagem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nos governos Dilma Rousseff, ele já enfrentara acusações de aparelhamento político e censura interna.
Sem resposta da presidência
A reportagem solicitou entrevista com Márcio Pochmann, mas não obteve retorno até o fechamento deste texto. A presidência do IBGE informou apenas que mudanças recentes integram um processo de reorganização administrativa.
O anúncio oficial do PIB de 2025 permanece agendado para 3 de março, em meio a questionamentos sobre a estabilidade institucional e a confiança nos dados produzidos pelo instituto.
Com informações de Gazeta do Povo