A liquidação do Banco Master, anunciada recentemente, desencadeou uma série de efeitos que podem se estender pelos próximos anos, alcançando consumidores, empresas e o próprio governo. Especialistas ouvidos apontam impactos sobre confiança no sistema financeiro, custo do crédito, política monetária e até mesmo a arrecadação pública.
Abalo na confiança de instituições de menor porte
Desde a intervenção, investidores passaram a demonstrar maior cautela com bancos de pequeno e médio porte — aqueles cujo patrimônio líquido varia de R$ 15 bilhões a R$ 23 bilhões. Segundo a economista-chefe da GEP Brasil, Tânia Gofredo, a desconfiança dificulta a venda de produtos como CDBs, encarecendo a captação dessas instituições.
Para Elber Laranja, fundador da Titanium, o quadro cria um “descompasso”: bancos precisam oferecer prêmios mais altos para atrair recursos, mas a menor liquidez os obriga a cobrar juros maiores nos empréstimos.
Crédito mais caro para pequenas e médias empresas
O repasse de custos tende a atingir primeiro as pequenas e médias empresas, dependentes dos bancos de menor porte. No médio prazo, o aumento dos juros pode pressionar preços de produtos e serviços e colocar negócios em risco de insolvência.
Deslocamento de recursos para grandes bancos
A busca por segurança encaminha parte das aplicações para instituições de grande porte, consideradas mais sólidas. Embora ofereçam menor rentabilidade, esses bancos devem absorver parte do dinheiro devolvido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), observa Gofredo.
Regulação financeira mais rígida
O episódio também acelera discussões sobre supervisão. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sugeriu transferir a fiscalização de fundos de investimento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para o Banco Central (BC). Paralelamente, o Conselho Monetário Nacional (CMN) já modificou regras do FGC e sinaliza maior exigência de compliance e auditoria para todo o setor.
Conta pode chegar ao consumidor
Para cobrir os R$ 40,6 bilhões que o FGC terá de pagar, o CMN dobrou de 0,01% para 0,02% a alíquota sobre depósitos elegíveis e estuda antecipar cinco anos de contribuições. A tendência, afirmam analistas, é de repasse desse custo a tarifas bancárias, taxas de cheque especial e juros ao longo do tempo.
Além disso, o Banco de Brasília (BRB) — que adquiriu carteiras do Master — recebeu determinação do BC para provisionar R$ 2,6 bilhões, o que pode exigir aporte de recursos públicos.
Maior procura por títulos do Tesouro
Com o choque de confiança, investidores preferem alternativas consideradas mais seguras, como os títulos públicos federais. O professor da ESPM Jorge Ferreira avalia que essa migração eleva a entrada de recursos no caixa do governo, reforço bem-vindo em ano eleitoral.
Queda da Selic pode atrasar
O Copom se reúne na quarta-feira, 28 de janeiro, e o mercado projeta manutenção da Selic em 15%. Contudo, a incerteza gerada pela quebradeira do Master pode manter as expectativas de inflação desancoradas e retardar futuros cortes da taxa básica, perpetuando juros altos e crédito caro.
Os desdobramentos devem ser observados ao longo de 2026 e além, com efeitos distribuídos entre investidores, empresas, contribuintes e consumidores de todo o país.
Com informações de Gazeta do Povo