Brasília — Um levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), encomendado pela Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo), calcula que o comércio ilegal de cigarros movimenta R$ 10,2 bilhões por ano no Brasil. O valor corresponde a cerca de 7% do faturamento das principais organizações criminosas que atuam no país.
Divulgado em 3 de novembro de 2025, o estudo relaciona diretamente o crescimento do contrabando de tabaco à Resolução RDC nº 14/2012 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que proíbe o uso de aditivos, flavorizantes e aromatizantes nos cigarros fabricados no mercado formal.
Impacto econômico e social
De acordo com o documento, o setor legal de cigarros gera R$ 21 bilhões por ano e sustenta 138 mil famílias produtoras, concentradas sobretudo na Região Sul. A FGV alerta que a aplicação integral da norma da Anvisa pode levar parte dos consumidores a migrar para marcas ilegais, fortalecendo quadrilhas ligadas ao contrabando e reduzindo a arrecadação de impostos.
Num cenário considerado mais severo, a pesquisa projeta perdas de R$ 8,9 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB), R$ 3,3 bilhões na renda das famílias, R$ 2,8 bilhões em tributos e a eliminação de até 109 mil postos de trabalho.
Paraguai como principal origem
Dados do Ipec de 2023 apontam que 36% dos cigarros consumidos no Brasil são ilegais, sendo 27% oriundos do Paraguai — país cuja capacidade de produção é 24 vezes superior ao consumo interno. Entre 2022 e 2023, mais de 30 fábricas clandestinas foram fechadas pela Polícia Federal e pela Receita Federal, muitas delas especializadas em falsificar marcas paraguaias.
Receita do crime organizado
O relatório ressalta que as redes de contrabando utilizam mão de obra irregular ou análoga à escravidão e empregam os lucros na compra de armas e drogas. Em 2023, o mercado ilegal de cigarros teria movimentado R$ 38,7 bilhões — montante maior que o orçamento anual de diversos estados brasileiros.
Risco para regiões produtoras
A FGV destaca ainda o impacto social da proibição de aditivos em municípios dependentes da fumicultura, especialmente no Rio Grande do Sul. A combinação de crise climática e possíveis perdas de mercado pode agravar a situação econômica de comunidades rurais, segundo o estudo.
Com informações de Gazeta do Povo