Brasília, 10 de março de 2026 – A ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã reverteu em poucos dias o cenário que parecia favorável à economia brasileira no início do ano. Na segunda-feira (9), o barril do Brent ultrapassou a marca simbólica de US$ 100 e chegou a bater US$ 119,50, patamar que o governo federal classificava como divisor de águas para a inflação. Na manhã desta terça-feira (10), a cotação recuou para US$ 93,07, mas ainda acumula alta de 35,5 % em 30 dias.
Combustíveis lideram o choque de preços
O impacto chega primeiro às bombas. Segundo André Braz, coordenador de índices de preços do FGV Ibre, variações internacionais do petróleo alcançam o consumidor brasileiro quase de imediato, podendo interromper ou mesmo reverter a tendência recente de desaceleração do índice de preços.
O reflexo vai além da gasolina. O diesel, com peso menor no indicador oficial, influencia o frete de um país que transporta cerca de 80 % de suas cargas por rodovia. Alta no combustível se traduz em encarecimento de alimentos, produtos industriais e serviços.
Agronegócio sente pressão de fertilizantes e diesel
O agronegócio é o setor mais exposto depois da área de energia. O Brasil importa entre 80 % e 85 % dos fertilizantes que utiliza e o Oriente Médio responde por um terço da ureia comprada pelo país, de acordo com o Itaú BBA. Com a paralisação de instalações de gás no Catar após ataques de drones, o preço da ureia subiu mais de 10 % em poucos dias.
Cálculos do Bradesco indicam que cada aumento de 10 % em fertilizantes e diesel eleva em aproximadamente 5 % o custo de produção de soja e milho. A região também compra 14 % do açúcar brasileiro, 9 % do milho e 8 % do frango. Especialistas consideram improvável um redirecionamento total dessas exportações, mas a incerteza já preocupa produtores.
Corte da Selic pode ficar para depois
A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) marcada para 17 e 18 de março ganhou importância adicional. Antes da crise, o mercado projetava redução de 0,50 ponto percentual na taxa Selic, atualmente em 15 %. Agora, casas como Warren Investimentos e InvestSmart XP preveem corte de apenas 0,25 p.p., enquanto o Banco Sofisa vê chances maiores de manutenção da taxa caso o petróleo permaneça acima de US$ 100.
Petrobras entre receitas maiores e pressão política
Petróleo caro costuma engordar a receita da Petrobras em dólar, mas, internamente, a estatal enfrenta um atraso de 41 % no preço do diesel e de 17 % na gasolina em relação ao mercado internacional. Analistas alertam que segurar reajustes em ano eleitoral alivia o bolso do consumidor no curto prazo, mas gera prejuízos à companhia e aos acionistas mais à frente.
Moeda brasileira pode atrair fluxo externo
Relatório do Rabobank assinado pelos economistas Maurício Une e Renan Alves aponta um possível efeito colateral positivo: com investidores globais buscando diversificar aplicações fora dos Estados Unidos, moedas latino-americanas, entre elas o real, podem se beneficiar. Ainda assim, o banco projeta dólar a R$ 5,55 no fim de 2026 – a moeda já rondava R$ 5,30 na semana passada.
Estreito de Ormuz no foco dos mercados
O fechamento temporário do Estreito de Ormuz, rota de cerca de 13 milhões de barris diários (31 % do petróleo transportado por mar), elevou o risco geopolítico. Ministros de Energia do G7 discutem a liberação de reservas estratégicas, enquanto os Estados Unidos cogitam colocar no mercado de 300 a 400 milhões de barris – o equivalente a 25 % a 30 % das reservas do grupo.
Se o conflito se prolongar, os reflexos poderão se espalhar pela economia mundial. Como lembra o professor Leonardo Trevisan, da ESPM, um aumento de 10 % nos combustíveis impacta praticamente todos os preços nos Estados Unidos – e, por tabela, em diversos outros países.
Com informações de Gazeta do Povo