O avanço dos confrontos no Oriente Médio desde sábado (28) acendeu o sinal de alerta no agronegócio brasileiro. Altamente integrado ao comércio exterior, o setor já sente reflexos no preço de insumos, na logística internacional e na cotação do dólar.
Ureia mais cara e risco de oferta
O Irã figura entre os principais fornecedores globais de ureia, fertilizante nitrogenado essencial para culturas como milho, café, cana-de-açúcar, trigo e pastagens. Em 2025, o país persa foi o décimo maior exportador do produto ao Brasil.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) mostram que o Brasil importou 7,7 milhões de toneladas de ureia no ano passado. Desse volume, 51,7% vieram de Nigéria (1,8 milhão t), Omã (1,2 milhão t) e Catar (991 mil t) — nações que utilizam gás natural iraniano na produção.
Como quase 90% do custo do fertilizante corresponde ao gás, a tensão geopolítica encarece a matéria-prima. Na segunda-feira (2), cotações de nitrogenados subiram no Brasil e em outros grandes mercados, informou a consultoria Argus. Produtores do Oriente Médio retiraram ofertas enquanto avaliam estoques e rotas disponíveis.
Segundo Daniel Vargas, professor de Direito e Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), entre 30% e 50% dos produtores nacionais ainda não fixaram todo o custo de ureia para a safrinha de milho, ficando expostos a novas altas.
Petróleo em alta pressiona fretes e inflação
Com cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito mundial atravessando o Estreito de Ormuz — fechado na terça-feira (3) pela Guarda Revolucionária iraniana — o barril acumula alta de 15% desde os ataques que levaram à morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã.
No Brasil, onde a maior parte da produção agropecuária viaja por rodovias, o diesel pesa diretamente nos custos. A XP Investimentos calcula que cada 10% de valorização do Brent adiciona 0,25 ponto percentual ao IPCA; se permanecer a US$ 70, o impacto pode chegar a 0,4 p.p.
Dólar firme encarece insumos, mas reforça receitas
A busca de investidores por ativos considerados seguros elevou o dólar a R$ 5,28 no pregão de terça, avanço de 3% sobre a sexta-feira (27). Moedas de países em desenvolvimento tendem a se desvalorizar em crises internacionais, lembra Vargas. O efeito é duplo: importações ficam mais caras, mas exportadores recebem mais em reais.
Exportações sob risco de rota
O Irã comprou do Brasil, em 2025, US$ 1,98 bilhão em cereais, farinhas e preparações; US$ 745,8 milhões em soja; e US$ 189,1 milhões do complexo sucroalcooleiro. O milho lidera as vendas, com 9 milhões de toneladas — 23% de todo o cereal exportado pelo país.
A expectativa é de que o volume não diminua, mas o aumento de custos de produção pode mexer em cadeias como a de carnes, pois o milho é base de ração para frangos e confinamento de bovinos.
Carne bovina halal depende do Estreito de Ormuz
O Brasil, maior produtor global de carne halal, exporta mais de 28 mil toneladas mensais pela rota que passa por Ormuz. Segundo Frederico Favacho, especialista em contratos internacionais do agronegócio, alternativas pelo Mediterrâneo existem, porém são mais dispendiosas e complexas.
As vendas de carne bovina aos países árabes somaram US$ 1,79 bilhão em 2025, alta de 1,91% ante 2024, de acordo com a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. Embora a China e a União Europeia sejam os maiores compradores, os embarques ao Oriente Médio sustentam números recordes.
Biocombustíveis ganham competitividade
A disparada do petróleo também torna etanol e biodiesel relativamente mais atraentes. Produzidos principalmente a partir de cana-de-açúcar e soja — e, em crescimento, do milho —, os biocombustíveis nacionais podem se beneficiar de preços fósseis elevados, o que ajudaria a compensar parte do encarecimento dos fertilizantes.
O agronegócio brasileiro monitora diariamente os desdobramentos no Oriente Médio para ajustar compras de insumos, contratos de exportação e rotas logísticas, enquanto a volatilidade de preços e câmbio tende a permanecer até haver maior clareza sobre a duração do conflito.
Com informações de Gazeta do Povo