São Paulo – A sequência de recordes do Ibovespa, impulsionada por forte entrada de recursos externos desde o fim de 2025, pode perder fôlego após os desdobramentos da liquidação do Banco Master, apontam analistas.
Recordes sustentados por estrangeiros
O principal índice da B3 superou 181 mil pontos em 27 de janeiro de 2026. Até o dia 23, investidores de fora do país haviam injetado aproximadamente R$ 17,7 bilhões, valor que já corresponde a mais da metade dos R$ 25,5 bilhões aportados em todo o ano passado.
Alerta internacional
Em 23 de janeiro, a revista The Economist publicou reportagem atribuindo ao ex-controlador do Master, Daniel Vorcaro, um rombo que recaiu sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O texto também destacou supostas interferências políticas e judiciais no caso, citando o ministro do TCU Jonathan de Jesus, o ministro do STF Alexandre de Moraes e o senador Ciro Nogueira (PP-PI). O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi retratado como quem resiste a pressões e defende a autonomia da autoridade monetária.
Risco jurídico e prêmio maior
Leonardo Roesler, sócio do RCA Advogados, lembra que o capital estrangeiro aceita riscos maiores em mercados emergentes, mas exige retorno proporcional. “Se a turbulência institucional aumenta, o investidor pede prêmio extra ou procura outro destino”, afirma.
Para André Vasconcellos, professor da Trevisan Escola de Negócios, o episódio elevou a percepção de incerteza regulatória. “Quando há receio de quebra de contratos ou captura regulatória, esse custo invisível pressiona o preço do dinheiro”, diz.
Atuação do Banco Central
Entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado Master e interveio em gestoras ligadas ao grupo. O advogado Fernando Canutto, do Godke Advogados, avalia que a resposta rápida ajuda a preservar a confiança, “desde que as regras sejam seguidas à risca”.
Concorrência entre emergentes
Brasil, México, Índia, Indonésia, África do Sul e Chile disputam o mesmo fluxo de recursos. No Índice de Percepção da Corrupção 2024 da Transparência Internacional, o Brasil obteve 34 pontos e ficou na 107ª posição, atrás de Chile (63), Índia (38) e Indonésia (37).
Cenário adiante
Luís Garcia, do Tax Group, vê baixa probabilidade de fuga abrupta de capitais, mas prevê reprecificação gradual dos ativos. “Maior custo de capital afeta empresas, câmbio e, indiretamente, a arrecadação”, afirma.
O fôlego do rali da bolsa, concluem os especialistas, dependerá da confiança diária dos investidores internacionais na estabilidade institucional brasileira.
Com informações de Gazeta do Povo