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Brasil ensaiou ser líder em carne de coelho nos anos 1980, mas projeto naufragou

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Curitiba – Programas de governo, cooperativas em cadeia e anúncios de renda rápida quase transformaram o Brasil em grande produtor de carne de coelho entre o fim da década de 1970 e meados dos anos 1980. O entusiasmo, porém, não sobreviveu à falta de abatedouros, a mudanças políticas e ao pouco apelo do consumo doméstico, levando o setor ao declínio.

Investidas públicas em vários estados

Em um cenário de busca por proteínas mais baratas do que a bovina, prefeituras, secretarias estaduais e até o governo federal lançaram projetos de cunicultura. No Vale do Paraíba (SP), municípios criaram iniciativas locais; no Recife, o Projeto Coelho, iniciado em 1980, entregava a famílias um macho e quatro fêmeas, recolhendo os reprodutores após a primeira cria para repasse a novos interessados.

O Rio de Janeiro ofereceu cursos gratuitos de três meses pelo Programa Especial de Fomento à Cunicultura. No mesmo período, escolas municipais receberam animais e carne de coelho em ações subsidiadas por Petrobras e Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

Paraná liderou com o “Nosso Coelho”

A maior aposta veio do Paraná. Lançado em 1985, o programa Nosso Coelho planejava erguer 40 cooperativas e envolver cerca de 20 mil produtores familiares. O Ministério da Agricultura repassou 8,8 bilhões de cruzeiros (cerca de R$ 15,7 milhões em valores atuais) para a implantação.

Folderes da época prometiam renda de até quatro salários mínimos mensais: uma área coberta de 80 m² com 40 matrizes renderia, em média, 36 animais para abate por fêmea a cada ano.

Atraente no papel

Nutricionalmente, a carne de coelho exibe alto teor de proteínas e ferro, gordura três vezes menor que a suína e aproximadamente metade da de frango. Estudos britânicos indicavam conversão alimentar de até 20%, superior à de suínos (15 a 18%) e bovinos (9 a 12%). Além da carne, criadores destacavam uso da pele na indústria de vestuário, couro em luvas e bolsas, vísceras para farinha e dejetos para adubo.

Origem nos laboratórios

O animal chegou ao Brasil na década de 1950, trazido por colonos italianos para produzir láparos – filhotes usados no preparo de vacina contra febre aftosa pelo Instituto Butantan e pela Fundação Oswaldo Cruz. Com a adoção de ovos embrionados de galinha na fabricação do imunizante, parte dos criadores migrou para a produção de carne.

Pico populacional e promessas de exportação

Impulsionada pelos incentivos, a população de coelhos brasileiros alcançou quase 1 milhão de cabeças na década de 1980, segundo o IBGE. A mídia especializada anunciava potencial de exportação para Europa e Ásia. O zootecnista Márcio Infante Vieira declarava, em maio de 1986, que o coelho seria capaz de “resolver o problema da fome no mundo”.

Falta de abatedouros e mudança de governo derrubam o setor

A rápida expansão dos criatórios não encontrou respaldo industrial. Sem frigoríficos específicos, a venda ficou restrita a mercados informais ou ao consumo próprio. O estranhamento cultural – o coelho era visto mais como animal de estimação – conteve a clientela.

No Paraná, o governador José Richa renunciou em 1986 para disputar o Senado; seu sucessor, Alvaro Dias, encerrou o Nosso Coelho. Com ciclos reprodutivos curtos, os plantéis cresceram rapidamente, mas não havia onde abater. Muitos produtores venderam os animais vivos a preços irrisórios ou simplesmente abandonaram estruturas recém-montadas.

De quase potência a nicho

A partir de 1987, o número de coelhos diminuiu ano a ano. Artigo de 1995 na revista World Rabbit Science reconhecia as condições favoráveis do país, mas registrava a ausência de uma cadeia organizada.

Hoje, o segmento é restrito. O frigorífico Coelho Real, em Mairinque (SP), é o único com Serviço de Inspeção Federal (SIF) habilitado a exportar, mas não supre nem a demanda interna e, por vezes, procura ativamente criadores para manter o abastecimento.

Dados do Censo Agropecuário de 2017 apontam 200,3 mil coelhos em 16,2 mil estabelecimentos. A região Sul concentra 59,6% (119,4 mil cabeças), seguida pelo Sudeste com 20,1% (40,3 mil).

Potencial ainda existe, dizem especialistas

Ex-presidente da Associação Científica Brasileira de Cunicultura, Leandro Dalcin Castilha lembra que outras cadeias pecuárias brasileiras – bovina, suína, de frango e de tilápia – também dependem de espécies introduzidas e defende que o país poderia voltar a mirar o mercado externo de carne de coelho.

Por enquanto, entretanto, a produção continua limitada a criadores artesanais e a um único abatedouro habilitado, bem distante das ambições de quatro décadas atrás.

Com informações de Gazeta do Povo