O Brasil reúne a segunda maior reserva mundial de terras raras, dispõe de uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta e mantém posição neutra na disputa entre Estados Unidos e China. Mesmo assim, especialistas alertam que o país desperdiça uma janela considerada histórica para atrair investimentos e avançar na cadeia de valor de minerais cruciais para semicondutores, turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas de defesa.
Disputa EUA-China abre espaço ao Brasil
A fragmentação das cadeias de suprimento causada pela rivalidade entre Washington e Pequim elevou a importância de fornecedores alternativos. As reservas brasileiras só ficam atrás das chinesas, que respondem por cerca de 60% da extração global de terras raras e quase 90% do refino. O economista-chefe do Itaú Asset Management, Thomas Wu, resume o dilema: “Para se armar e conter a China, os Estados Unidos dependem da importação de terras raras fornecidas, majoritariamente, pela própria China”.
O cenário se agrava com o risco de conflito em Taiwan, maior produtor dos semicondutores mais sofisticados do mundo. Uma interrupção no fornecimento taiwanês poderia acelerar a regionalização das cadeias produtivas e encarecer produtos finais.
Vantagem geológica não vira valor agregado
Estudos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) mostram que o Brasil possui depósitos de argilas iônicas em Poços de Caldas (MG), mais fáceis e baratos de explorar que jazidas em rocha dura. Mesmo assim, o país ainda exporta concentrado misto de baixo valor. Enquanto o quilo desse composto sai por cerca de US$ 10, óxidos separados atingem de US$ 50 a US$ 200, e ímãs permanentes podem custar milhares de dólares.
O diretor-executivo da mineradora Viridis, José Marques Braga Júnior, cita o projeto Colossus, também em Minas Gerais, sem barragens nem pilhas definitivas de rejeito. Porém, faltam plantas industriais nacionais para separação química, tecnologia dominada há décadas pela China.
Energia limpa e demanda da IA
O boom de investimentos em inteligência artificial triplicou o gasto de capital das grandes empresas de tecnologia entre 2023 e 2026. Data centers exigem enorme quantidade de eletricidade e água para resfriamento; por isso, a matriz majoritariamente renovável brasileira é considerada ativo estratégico. Mesmo assim, o país não tem atraído centros de dados na mesma proporção de concorrentes com energia mais cara, mas ambiente institucional mais previsível.
Entraves: fiscal, juros e insegurança jurídica
A dívida pública ultrapassa 78% do PIB e deve chegar a 84% em 2026, segundo o UBS. A Selic, em 15%, é a maior em 19 anos. O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, afirma que juros elevados encarecem o investimento produtivo, enquanto o diretor de macroeconomia da Tendências, Alessandra Ribeiro, alerta para o risco de dominância fiscal.
A incerteza jurídica, reforçada por decisões retroativas do Congresso e do Judiciário, também inibe projetos de longo prazo. Para o professor Alexandre Uehara, da ESPM, o país corre o risco de repetir o modelo colonial de exportar matéria-prima sem industrialização.
Três ações consideradas urgentes
- Conter gastos públicos para estabilizar as contas e permitir corte sustentável de juros, aponta o economista da XP, Thiago Sbardelotto.
- Garantir segurança jurídica e previsibilidade regulatória, requisito citado pelo diretor-de-investimentos do UBS no Brasil, Luciano Telo.
- Implantar política industrial coordenada. O Projeto de Lei 2780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), é visto pelo Ibram como passo decisivo para transformar dotação geológica em desenvolvimento.
Enquanto países como Austrália, Chile e Vietnã avançam em cadeias alternativas à China, a Agência Internacional de Energia prevê que a demanda global por terras raras crescerá sete vezes até 2040. Se não superar o impasse fiscal, reduzir a insegurança jurídica e estruturar uma estratégia industrial sólida, o Brasil pode assistir novamente a outros capturarem o valor agregado de uma riqueza que, em grande parte, está em seu próprio solo.
Com informações de Gazeta do Povo