Brasília – O apagão que atingiu todo o país na madrugada de 14 de outubro de 2025 voltou a escancarar a vulnerabilidade do sistema elétrico brasileiro. Um incêndio em uma subestação da Copel, em Campo Largo (PR), provocado pela explosão de um reator de linha da Eletrobras, desconectou a Região Sul do restante do Sistema Interligado Nacional (SIN) e derrubou o equivalente a 12% da demanda nacional de eletricidade.
Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a carga naquele momento era de pouco mais de 78 gigawatts (GW), contra média diária de 82 GW. A falha obrigou o desligamento de cerca de 1,8 GW no Sul e o corte de 9 GW de geração na região, que exportava 5 GW para o Sudeste. Para reequilibrar oferta e consumo, o Esquema Regional de Alívio de Carga (Erac) retirou 8 GW do Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
Comparação com 2023
Embora menos severo que o blecaute de 15 de agosto de 2023 – quando mais de 30% do consumo nacional foi interrompido por seis horas –, o episódio de 2025 voltou a levantar questionamentos sobre manutenção de equipamentos, reação do ONS e propagação de falhas em cascata. Especialistas apontam que, com mais de 170 mil quilômetros de linhas, o SIN facilita socorro entre regiões, mas também amplia o alcance de incidentes locais.
Autoridades falam em “colapso”
Em audiência no Senado em 16 de outubro, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Sandoval Feitosa, classificou a situação do sistema como “extremamente perigosa”, sobretudo durante as chamadas “rampas” – períodos de transição entre alta geração solar ao meio-dia e queda brusca no fim da tarde. “Se ocorrer um incidente nesse momento, o sistema pode ir a pique”, afirmou.
Relator da Medida Provisória 1.304, que trata de mudanças no setor, o senador Eduardo Braga (MDB-AM) declarou que o país está “à beira de um colapso” e cobrou responsabilidade de todos os segmentos. Nas redes sociais, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ironizou: “Sem cerveja, sem picanha e sem luz!”.
Pressão sobre a geração distribuída
O rápido crescimento da energia solar em telhados, presente em mais de 3 milhões de residências, tornou-se outro foco de preocupação. Em dias de forte insolação, o ONS desliga parques eólicos e solares no Nordeste para evitar sobrecarga, prática que já teria causado perdas de quase R$ 4 bilhões às usinas em 2025. No final da tarde, quando a produção dos painéis cai, hidrelétricas e termelétricas precisam elevar a geração com rapidez para compensar até 40 GW, operação considerada cada vez mais complexa.
Diante desse cenário, a Aneel reiterou que distribuidoras devem cortar a geração distribuída sempre que o ONS determinar, estendendo o chamado curtailment aos consumidores residenciais. Também ganham força propostas para eliminar descontos pelo uso da rede e implantar tarifas horárias, baratas em períodos de sobra e caras nos horários de escassez, visando estimular investimentos em baterias.
Enquanto as investigações buscam esclarecer as causas do blecaute no Paraná, técnicos e parlamentares discutem mudanças para reduzir riscos tanto na infraestrutura de transmissão quanto na expansão da energia solar.
Com informações de Gazeta do Povo