São Paulo – Entre 2015 e o primeiro semestre de 2025, as companhias aéreas brasileiras acumularam um prejuízo de R$ 54,7 bilhões, de acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O resultado contrasta com pátios lotados e a maior taxa de ocupação registrada para o mês de outubro desde 2000: 85 % dos assentos vendidos.
Demanda cresce, perdas também
O volume de passageiros–quilômetro transportados subiu 6,7 % de 2015 a 2024. Nos seis primeiros meses de 2025, a alta foi de 11,1 % em relação ao mesmo intervalo do ano anterior. Em outubro de 2025, 9 milhões de pessoas embarcaram em voos domésticos, ante 2,4 milhões em outubro de 2000, mas a rentabilidade não acompanhou esse avanço.
Custos em dólar e combustível pressionam
Cerca de 57 % das despesas do setor são cotadas em dólar, segundo a Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear). O querosene de aviação (QAV), responsável por até 38 % do custo total, custava R$ 3,48 o litro em outubro, apesar de 90 % do produto ser refinado no país. A política de paridade internacional de preços e alíquotas de ICMS que variam de estado para estado elevam as despesas.
Somam-se à conta os juros reais mais altos do mundo, que encarecem leasing, financiamentos e capital de giro.
Crises corporativas em série
Pressionadas, as maiores companhias recorreram a cortes e reestruturações:
- Latam – em Chapter 11 de maio de 2020 a novembro de 2022;
- Gol – protegida da mesma forma entre janeiro de 2024 e junho de 2025;
- Azul – entrou em recuperação nos EUA em maio de 2025; plano aprovado em dezembro para reestruturar dívida superior a R$ 34,6 bilhões.
Mercado cada vez mais concentrado
Em outubro de 2000, Varig, TAM e Vasp detinham 64,2 % dos assentos domésticos. Vinte e cinco anos depois, Latam, Gol e Azul controlam 99,9 % do mercado, ofertando 10,9 milhões de lugares. Altos custos de frota, manutenção, seguros e o acesso limitado a slots em aeroportos como Congonhas e Santos Dumont mantêm barreiras quase intransponíveis a novos competidores.
Pandemia escancarou fragilidades
Com a COVID-19, o movimento de passageiros despencou 94,5 % em abril de 2020, gerando perdas superiores a R$ 15 bilhões. Na B3, as ações da Gol recuaram 77,2 % nos últimos cinco anos; os papéis da Azul caíram 97,8 %. Na Bolsa de Nova York, a Latam desvalorizou 64,7 % no mesmo período.
Judicialização e mudanças regulatórias
O Brasil lidera o ranking global de processos contra companhias aéreas. Somente no primeiro semestre de 2025, condenações somaram R$ 710 milhões, quase o triplo de 2024. O setor ainda enfrenta incertezas como o projeto que restabelece franquia gratuita de bagagem despachada, aprovado na Câmara em outubro. Abear, Iata e Alta avaliam que a medida encarece passagens e eleva riscos regulatórios.
Falta de política de Estado
Executivos e especialistas apontam a ausência de um plano nacional para a aviação. Linhas de crédito do BNDES, discutidas desde 2024, só devem sair em 2026. O governo anunciou que o Fundo Nacional de Aviação Civil passará a financiar companhias anualmente, mas detalhes operacionais ainda não foram definidos.
Enquanto a demanda segue em alta, o cenário de custos dolarizados, juros elevados, combustíveis caros e judicialização intensa mantém o setor no vermelho, reforçando o caráter estrutural da crise.
Com informações de Gazeta do Povo