Brasília – 28/08/2025: A combinação de juros elevados e risco de novas sanções comerciais dos Estados Unidos levou o número de empresas brasileiras em recuperação judicial a 4.965 no primeiro semestre, o maior já registrado pela consultoria RGF Associados. O total representa alta de 17,6% em relação ao mesmo período de 2024 e equivale a duas companhias em dificuldade para cada mil ativas, desconsiderados os microempreendedores individuais.
Pressão externa
O cenário, já comprometido pela taxa Selic de 15% ao ano, piorou com a tarifa de 50% imposta por Washington sobre produtos brasileiros a partir de 6 de julho. Segundo o governo de Donald Trump, apenas o suco de laranja ficou fora da taxação.
A Casa Branca também sinaliza medidas adicionais caso o ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, seja condenado pelo Supremo Tribunal Federal em julgamento marcado para 2 de setembro. Entre as possibilidades estão:
- ampliação das tarifas comerciais;
- aplicação da Lei Magnitsky a empresas e bancos nacionais;
- exclusão do Brasil do Swift, o sistema internacional de pagamentos.
Juros como principal obstáculo
De acordo com Roberta Gonzaga, especialista da RGF Associados, a manutenção da Selic em patamar elevado limita o acesso ao crédito e pressiona o caixa das companhias. O custo maior atinge capital de giro, rolagem de dívidas e consumo das famílias, reduzindo a demanda por bens e serviços.
Impacto no agronegócio e no Centro-Oeste
Com forte dependência das exportações, o agronegócio é o setor mais vulnerável à tarifa norte-americana. A região Centro-Oeste concentra 2,75 empresas em recuperação judicial por mil – 40% acima da média nacional. Em Mato Grosso, há 21,5 produtores de soja e 20,9 de cana-de-açúcar em dificuldades para cada mil.
No processamento agrícola, a fabricação de açúcar registra 181,4 empresas em recuperação para cada mil, seguida por produtos de arroz (117,7) e produção de etanol (74,8).
Entre abril e junho, o agronegócio somou 389 novos pedidos, avanço de 13,8% no trimestre. Apenas produtores rurais pessoa física responderam por 195 solicitações, sobretudo arrendatários afetados por custos fixos e receitas voláteis.
Demais setores
No segundo trimestre, a indústria contabilizou 1.121 empresas em recuperação judicial (alta de 0,1% ante o trimestre anterior), os serviços 1.117 (+2%) e o comércio 1.003 (+0,7%).

Imagem: Daniel Torok
Falências após a recuperação
Quase 30% das companhias que concluem o processo de recuperação acabam falindo, maior índice da série histórica da RGF. Especialistas atribuem parte do problema à falta de gestão financeira. “Muitas empresas só procuram ajuda quando a desorganização já é grave”, afirma o advogado Marcos Pelozato.
No setor financeiro, a eventual aplicação da Lei Magnitsky é vista como risco extremo. Para Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, congelamento de ativos em dólar seria “uma bomba atômica” para a economia.
Adaptar operações, renegociar dívidas e reforçar o controle de caixa são as estratégias apontadas por consultores para atravessar o ciclo adverso.
Mesmo assim, a expectativa de alívio dependerá de um recuo consistente dos juros e da definição do impasse com os Estados Unidos.
Com informações de Gazeta do Povo