Brasília — O vice-presidente Geraldo Alckmin definiu, em entrevista concedida em 3 de abril de 2026, a estratégia econômica que pretende levar adiante caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seja reeleito: combinar um ajuste fiscal rigoroso já no primeiro ano do próximo mandato com a redução dos juros pelo Banco Central (BC) em 2027.
Meta é zerar o déficit primário
Alckmin destaca a queda do déficit primário de quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020 para metas de zero a 0,5%. Segundo ele, “ajuste se faz no primeiro ano” e será parte essencial do programa de governo que o PT apresentará para o próximo ciclo. O vice-presidente cita educação, inovação e competitividade como eixos de desenvolvimento, mas frisa que a disciplina fiscal continuará no centro das prioridades.
Mesmo defensor da austeridade, Alckmin sustenta a manutenção da taxação sobre importações de baixo valor — popularmente chamadas de “blusinhas” — para, segundo diz, assegurar “lealdade concorrencial” e proteger a indústria nacional, evidenciando as concessões políticas necessárias ao plano.
Crítica aos juros “descalibrados”
O vice-presidente classifica a taxa básica de juros como “totalmente descalibrada” e acusa o BC de ignorar fatores externos que pressionam a inflação, como a volatilidade do petróleo, a seca agrícola e tensões geopolíticas. Para ele, a alta dos preços não decorre de excesso de demanda, mas de choques de oferta que a política monetária, afirma, não controla.
Alckmin questiona: “Juro não sobe nem baixa o preço do barril do petróleo”, lembrando que o dólar chegou a R$ 6,30 e hoje está em torno de R$ 5,15. A redução dos juros, diz, deveria ocorrer paralelamente ao ajuste das contas públicas.
BC vê risco de política econômica desconexa
O Comitê de Política Monetária (Copom) argumenta que uma consolidação fiscal consistente é pré-requisito para cortar juros com segurança. Segundo a ata mais recente, a incerteza sobre a trajetória da dívida pública eleva o prêmio de risco e a taxa neutra, limitando a capacidade de afrouxamento monetário. O órgão reforça a necessidade de “harmonia” entre políticas fiscal e monetária, ponto que hoje considera fragilizado.
Base política em expansão
Para viabilizar o pacote de ajustes, o Palácio do Planalto negocia o apoio de oito partidos, em movimento liderado por Edinho Silva. O PSB, legenda de Alckmin, busca incorporar nomes como o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, pré-candidato ao governo de Minas Gerais, e a ex-ministra Simone Tebet. A ampliação da chamada “frente grande” pretende garantir votos para medidas impopulares, embora aumente o desafio de manter coesão interna.
Desenvolvimento com energia limpa e minerais críticos
No desenho de 2027, Alckmin defende um Estado regulador, não interventor, sem novos subsídios a estatais. A matriz energética inclui elevar o biodiesel a 15% do diesel e o etanol a 30% da gasolina. No setor extrativista, o foco é agregar valor a minerais estratégicos, aproveitando o excedente de energia renovável brasileiro para atrair indústrias de alta tecnologia, como datacenters.
Para a Instituição Fiscal Independente (IFI), porém, sem “virada” efetiva nas contas públicas, o país corre o risco de entrar em um “apagão fiscal”, cenário visto com preocupação pelo mercado.
Com informações de Gazeta do Povo