O agronegócio brasileiro, responsável por 29,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre de 2025, enfrenta uma deterioração financeira que tende a se aprofundar com as novas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.
Inadimplência atinge maior nível em cinco anos
Dados do Banco Central mostram que a taxa de inadimplência no crédito rural alcançou 4,4% em julho, o quarto aumento mensal consecutivo e 2,5 pontos percentuais acima dos 1,9% registrados em julho de 2024. A Genial Investimentos projeta manutenção da tendência nos próximos meses, o que pressiona especialmente o Banco do Brasil, cuja exposição ao setor soma cerca de R$ 405 bilhões, equivalente a um terço de sua carteira total.
Recorde de recuperações dentro e fora da porteira
Levantamento da RGF Associados indica alta de 13,8% nos pedidos de recuperação judicial de produtores rurais entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano. Já a Serasa Experian aponta incremento de 22,6% nas solicitações em toda a cadeia agroindustrial no primeiro trimestre, comparado ao mesmo período de 2024.
Produtores pessoa física, sobretudo arrendatários, lideram os pedidos. Entre as indústrias, fabricantes de açúcar apresentam 181,4 recuperações a cada mil empresas ativas; processadores de arroz, 117,6 por mil; e produtores de álcool, 74,3 por mil.
Principais focos de pressão financeira
Entre os cultivos, a soja registra 21,5 recuperações judiciais por mil produtores, seguida de cana-de-açúcar (20,9 por mil) e milho (16,8 por mil). Santa Catarina apresenta a pior situação geográfica, com 33,5 recuperações por mil produtores, à frente de Rio Grande do Sul (31,5 por mil) e Goiás (21,1 por mil).
“Tempestade perfeita” combina juros altos e instabilidade externa
Especialistas citam crédito restrito, juros elevados e oscilações climáticas entre os fatores domésticos da crise. No cenário internacional, pesam a queda nos preços de commodities, a valorização do real e, agora, o novo tarifaço dos EUA: alíquota adicional de 40% sobre a maioria das importações brasileiras, em vigor desde 6 de agosto, somada aos 10% já aplicados meses antes.
A medida afeta contratos de exportação com margens apertadas, segundo o advogado Rodrigo Linhares Orlandini, que vê espaço para pedidos de revisão amparados pela teoria da onerosidade excessiva.
Segmentos mais atingidos pelas barreiras
Carne bovina: a tarifa total de 76,4% torna inviáveis as vendas para os EUA, segundo maior importador mundial. Frigoríficos com operações internacionais, como JBS, Marfrig e Minerva Foods, planejam redirecionar embarques, mas criadores de gado já registram 9,6 recuperações judiciais por mil produtores, ante 6,24 em 2023.

Imagem: Wenders Araujo
Café: a nova tarifa de 50% encarece o produto brasileiro no maior mercado consumidor global. Analistas do Itaú BBA apontam dificuldade para que os EUA substituam o café do Brasil sem impactar preços ao consumidor.
Cana-de-açúcar e etanol: o setor de açúcar bruto, que já contabiliza 181,4 recuperações judiciais por mil empresas, teme perda de competitividade no mercado americano. A Jalles Machado estima impacto de até R$ 25 milhões no caixa e pretende redirecionar volumes para o mercado interno. Para o etanol, a substituição pelos EUA é considerada complexa, pois 70% das importações do combustível vêm do Brasil.
Soja: pedido do governo norte-americano para que a China quadruplicate compras da oleaginosa dos EUA pressiona ainda mais as margens dos produtores brasileiros, que já enfrentam 21,5 recuperações a cada mil unidades produtivas.
Ameaça adicional da Lei Magnitsky
A possível aplicação da Lei Magnitsky a instituições financeiras brasileiras cria incertezas sobre o fluxo de crédito ao agronegócio. Bancos com operações nos EUA correm risco de sanções caso mantenham negócios com autoridades brasileiras listadas, enquanto no país podem ser punidos se cortarem vínculos, gerando impasse jurídico e restringindo ainda mais o financiamento ao setor.
Com o crédito encarecido, a elevação de custos e o aumento de tarifas externas, consultores preveem nova onda de recuperações judiciais e falências no campo e na indústria, caso não haja alívio nas condições de mercado.
Com informações de Gazeta do Povo