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Acordo EUA–China recoloca soja americana no mercado e pressiona exportações do Brasil

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Cuiabá, 30 de outubro de 2025. O entendimento anunciado nesta quinta-feira (30) entre Estados Unidos e China, que prevê a retomada imediata das compras chinesas de soja norte-americana, acende o alerta para o agronegócio brasileiro. Especialistas avaliam que o novo cenário pode causar mais perdas ao setor do que a sobretaxa de 40% imposta por Washington sobre produtos vindos do Brasil.

Durante viagem em Busan, Coreia do Sul, o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que “quantidades enormes” de soja e outros itens agrícolas voltarão a ser embarcadas aos chineses “a partir de agora”. O anúncio encerra um período em que Pequim havia suspendido totalmente as aquisições do grão norte-americano, movimento que impulsionou o Brasil a ocupar espaços na maior economia asiática.

Dependência chinesa amplia impacto

A China é o principal destino da soja brasileira. Somente em 2024, as vendas do grão ao país renderam US$ 31,5 bilhões, 19,2% de toda a receita externa do agro, segundo os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Já o conjunto de embarques agropecuários aos Estados Unidos respondeu por US$ 12,1 bilhões — pouco mais de 7% dos US$ 164,3 bilhões exportados pelo Brasil no ano passado.

Para o professor sênior e coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, esses números explicam por que o acordo sino-americano tende a prejudicar mais o produtor brasileiro do que o “tarifaço” de Washington. “Sob a ótica do produtor, o impacto das tarifas foi bem menor do que se imaginava. A volta da soja dos EUA ao mercado chinês é que pode retirar parte do impulso que tivemos”, afirma.

Ele lembra que, antes de 2017, a tarifa de importação de soja era zero para Brasil, Estados Unidos e Argentina. “Nesse modelo, a China compra na América do Norte em parte do ano e na América do Sul em outra, o que reduz a necessidade de estocagem. Se houver algum mecanismo que favoreça apenas o produto americano, o cenário se torna pior para nós”, alerta Jank.

Sojicultores monitoram volatilidade

No Mato Grosso, maior produtor nacional — responsável por mais de 30% da safra e por mais de 25% das exportações brasileiras em 2025 —, o presidente da Aprosoja-MT, Lucas Beber, confirma a preocupação. “A primeira guerra tarifária entre EUA e China foi muito favorável ao Brasil. Agora, as especulações sobre um novo acordo fazem o mercado oscilar”, comenta.

Segundo Beber, a interrupção das compras chinesas de soja norte-americana levou a sucessivos recordes mensais de importação de soja do Brasil nos últimos três meses. “Quanto mais o entendimento demorava, mais o nosso preço se descolava da Bolsa de Chicago, elevando os prêmios internos”, explica. A tendência, avalia, é que essa diferença diminua com a reabertura do fluxo comercial entre Washington e Pequim.

Além da soja, o pesquisador Marcos Jank observa que os EUA negociam simultaneamente acordos com Europa, Índia e outros mercados, o que pode gerar efeitos adicionais sobre as exportações brasileiras. “Precisamos acompanhar esse conjunto de tratativas para entender o alcance sobre o agro do país”, conclui.

Com o acordo formalizado, agentes do setor aguardam os próximos embarques para medir a velocidade do retorno da soja norte-americana à China e o reflexo nos preços pagos ao produtor brasileiro.

Com informações de Gazeta do Povo