Um estudo inédito monitorou mais de 13 mil horas de cultos e missas no Brasil durante o primeiro turno das eleições de 2023, analisando conteúdos transmitidos pelo YouTube. A pesquisa, realizada pelo grupo Passagens da UFRJ em parceria com a organização More in Common, buscou identificar a ocorrência de crimes eleitorais e menções políticas em ambientes religiosos.
A análise envolveu igrejas católicas, batistas e Assembleias de Deus, selecionadas devido à sua relevância demográfica. Os resultados mostraram que a propaganda eleitoral foi registrada em 0,7% das missas católicas, 1,4% nas igrejas batistas e impressionantes 8,3% nas Assembleias de Deus. Essa disparidade pode ser atribuída à estrutura descentralizada dessa última denominação, que possui uma forte conexão com comunidades locais.
Contrariando expectativas, a maioria das menções políticas não se concentrou na disputa presidencial, mas sim em candidaturas para deputados estaduais e federais. As abordagens variaram de panfletagens diretas a orientações sutis de líderes religiosos. Em um caso emblemático em Goiás, um pastor sugeriu aos fiéis que colocassem adesivos de apoio a candidatos em seus carros, contornando assim as proibições legais.
Embora temas centrais da eleição, como a imagem de Nossa Senhora Aparecida, tenham sido mencionados de forma residual nas cerca de 2.000 missas católicas analisadas, a pesquisa revelou um foco maior em incentivar o civismo e o voto consciente, com uma frequência cinco vezes superior à observada em propagandas eleitorais.
O Instituto Brasileiro de Direito Religioso (IBDR) criticou o monitoramento, expressando preocupação com a liberdade religiosa e a autonomia das organizações religiosas. Em nota, a entidade afirmou que a simples menção a candidatos ou temas políticos não configura, por si só, crime eleitoral, e que a responsabilização deve respeitar o devido processo legal.
O levantamento reacende o debate sobre a intersecção entre política e religião, levantando questões sobre os critérios de classificação das manifestações políticas em cultos e o impacto do monitoramento na autonomia das igrejas. Embora a pesquisa tenha identificado a propaganda eleitoral em uma parcela minoritária das celebrações, as críticas à metodologia utilizada sugerem a necessidade de um equilíbrio entre a fiscalização eleitoral e a proteção da liberdade religiosa.
Fonte: Folha Gospel.









