A usura, prática de cobrar juros elevados em empréstimos, é um pecado que, embora amplamente esquecido, foi severamente condenado nos primeiros 1.500 anos da Igreja. A questão sobre o que é ou não considerado pecado permeia discussões contemporâneas, tanto dentro quanto fora da comunidade cristã.
Comumente, usura é entendida como a cobrança de juros excessivos, mas sua definição é mais abrangente. A origem da palavra vem do latim “usura”, que significa “uso”, referindo-se à utilização do dinheiro para gerar lucro. Nos textos da antiguidade, usura e a prática de cobrar juros eram sinônimos.
Hoje, a economia moderna depende da cobrança de juros. Adam Smith, em sua obra “A Riqueza das Nações”, defende essa prática, argumentando que o empréstimo oferece a oportunidade de lucro ao tomador e, portanto, o credor deve ser compensado pelos riscos. Essa aceitação levou a uma mudança no entendimento de usura, que passou a ser vista de forma mais restrita.
Entretanto, as escrituras bíblicas, principalmente no Antigo Testamento, proíbem a usura de forma clara. Em Deuteronômio 23:19, é explícito que “não cobrarás juros a um irmão, seja sobre dinheiro, alimentos ou qualquer outra coisa que possa render juros”. Similarmente, o Salmo 15 destaca que o “íntegro” é aquele que empresta aos pobres sem exigir juros.
No Novo Testamento, embora o termo usura não apareça com a mesma frequência, ensinamentos de Jesus, como em Lucas 6, reforçam a ideia de que devemos emprestar sem esperar retorno, condenando a prática de buscar ganho pessoal através de empréstimos.
Ao longo da história, pensadores cristãos como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino se opuseram à usura, considerando-a uma prática injusta. A mudança de percepção começou com João Calvino, que diferenciou entre “juros comerciais” e “usura nociva”, contribuindo para a aceitação da cobrança de juros na Europa do século XVII.
Apesar das transformações sociais e econômicas, a discussão sobre usura e justiça financeira permanece relevante. A igreja e os cristãos são chamados a refletir sobre sua posição em um sistema econômico que, muitas vezes, perpetua a injustiça. Práticas como empréstimos sem juros e iniciativas de perdão de dívidas podem ser formas de agir com integridade, promovendo um amor radical em um contexto onde as estruturas econômicas são desiguais.
O desafio atual é viver de acordo com os princípios bíblicos em um sistema que frequentemente recompensa a avareza e a exploração. A responsabilidade dos cristãos é buscar a justiça e a equidade, mesmo em meio a um mundo marcado pela desigualdade.
Fonte: Christianity Today.









