O paradeiro do bispo emérito de Estelí, Juan Abelardo Mata, 80 anos, é desconhecido há 19 dias. A denúncia foi feita pela pesquisadora de direitos humanos Martha Patricia Molina, que classificou o caso como “crime contra a humanidade” atribuído ao regime do presidente Daniel Ortega e da vice-presidente Rosario Murillo.
Segundo Molina, “nenhuma pessoa do círculo próximo ao bispo tem notícias dele”, aumentando a preocupação por suas condições de saúde — ele é diabético, possui problemas de visão e depende de um marca-passo. A última vez que foi visto ocorreu no fim de junho, quando policiais o detiveram duas vezes após celebrar missa em 28 de junho, durante a qual rezou pela Igreja perseguida no país.
Em 4 de julho, o Ministério do Interior divulgou nota afirmando que Mata havia sido submetido a “investigação sobre a origem de propriedades e vínculos familiares” e que, depois disso, teria “retornado para casa em perfeitas condições”. Apesar da declaração, familiares, clérigos e organizações de direitos humanos dizem não ter qualquer prova de vida.
Pressão interna e externa
O vigário paroquial da Paróquia Santa Ágata, em Miami, padre Edwing Román, exilado há vários anos, afirmou que “até agora há apenas silêncio oficial”. Ele cobra demonstração imediata de que o religioso está vivo.
Conferências episcopais da América Central, o Departamento de Estado dos Estados Unidos e personalidades como o ex-embaixador nicaraguense na OEA Arturo McFields exigem acesso médico ao bispo e esclarecimentos do governo.
Trajetória de Abelardo Mata
Nascido em 23 de junho de 1946, Mata ingressou na congregação salesiana em 1966 e foi ordenado sacerdote em 1976. Tornou-se bispo auxiliar de Manágua em 1988 e, dois anos depois, assumiu a Diocese de Estelí, que liderou até 2021, quando teve a renúncia aceita pelo papa Francisco ao completar 75 anos.
Reconhecido pela defesa dos direitos humanos, o prelado manteve perfil mais discreto após deixar o governo diocesano, mas voltou a se manifestar publicamente recentemente, o que, segundo fontes eclesiásticas, teria motivado a nova perseguição.
Religiosos que optaram pelo anonimato alertam que a Nicarágua se converteu em “prisão para sacerdotes” e que qualquer clérigo pode ser detido sem aviso. “Eles temem o bispo porque ele não os teme”, resumiu McFields.
Até o momento, o governo nicaraguense não apresentou provas de vida nem permitiu visitas de familiares, mantendo o mistério sobre as condições do bispo octogenário.
Com informações de Gazeta do Povo