Agências de inteligência dos Estados Unidos, como o FBI, e organismos europeus estão adquirindo grandes volumes de informações pessoais coletadas por empresas de publicidade digital para monitorar celulares e rotinas de pessoas sem necessidade de mandado judicial. A prática, crescente desde 2026, transforma o sistema comercial de anúncios on-line em ferramenta de vigilância estatal.
Como os dados chegam aos serviços de espionagem
O processo começa nos chamados leilões de anúncios em tempo real (RTB). Sempre que um usuário acessa um site ou aplicativo, dados de localização, preferências e comportamento são enviados a plataformas que disputam a exibição de propaganda. Corretoras de dados capturam esses pacotes, agrupam milhões de registros e revendem o material a governos sob a sigla Adint (inteligência publicitária).
O que pode ser descoberto
Embora as informações sejam apresentadas como anônimas, cada aparelho é identificado por um código numérico que pode ser cruzado com outros cadastros públicos ou privados. Com históricos de localização acumulados por meses, analistas conseguem apontar onde o usuário mora, trabalha, que templos frequenta, preferências políticas e até seus contatos pessoais.
Papel da inteligência artificial
Ferramentas de inteligência artificial permitem vasculhar bilhões de registros em segundos, identificando padrões de deslocamento e suspeitas de ligação entre indivíduos. Empresas do setor alertam que a tecnologia possibilita a criação de retratos detalhados da vida de qualquer cidadão em escala massiva.
Por que governos preferem comprar em vez de pedir à Justiça
No modelo tradicional, a polícia precisa justificar a um juiz o rastreamento de um celular via operadora. Já no mercado privado, os dados são classificados como “comercialmente disponíveis”, o que coloca a aquisição em uma zona cinzenta da legislação e afasta a supervisão do Poder Judiciário.
Tentativas de restrição
No Congresso dos Estados Unidos, parlamentares de ambos os partidos tentaram inserir limites à prática durante discussões de reformas na Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira (FISA). A proposta enfrentou resistência da Casa Branca e da liderança da Câmara, que alegaram necessidade de proteger a segurança nacional. Na Europa, a regulação é limitada; algumas agências utilizam empresas de fachada para encobrir a compra dos bancos de dados.
O debate sobre privacidade, comércio de informações e segurança continua sem consenso tanto em Washington quanto em Bruxelas.
Com informações de Gazeta do Povo