Brasília – Ordens de prisão contra o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada e ao menos outros dez investigados foram expedidas nesta sexta-feira (3) pela Justiça Federal, dois dias depois de o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluir o grupo na lista de sanções por envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e lavagem de dinheiro.
Shimada, apontado pelos norte-americanos como operador financeiro da facção criminosa, já era citado em documentos de inteligência no Brasil desde 2024, mas seguia em liberdade. Com a medida norte-americana, que bloqueou bens e proibiu transações envolvendo suas empresas, autoridades brasileiras finalmente deflagraram a operação. Até o fechamento desta edição, o empresário não havia sido localizado e é considerado foragido.
Quem é o principal alvo
Dono da Victory Trading Intermediação de Negócios, Shimada figura em relatório da CPMI do INSS como destinatário de R$ 514,5 milhões transferidos pela Wave Intermediações entre setembro de 2023 e setembro de 2024. A Wave é parte da chamada “rede Arpar”, estrutura que, segundo a comissão parlamentar, movimentou quase R$ 40 bilhões para dar aparência de legalidade a recursos de fraudes previdenciárias e de facções.
Além da Victory Trading, as sanções dos EUA alcançam a Wave Construções Inteligentes, a Pixwave Soluções de Pagamentos, a secretária de Shimada, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, e a empresa portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal. A defesa do empresário nega qualquer vínculo com o crime organizado e reclama falta de acesso aos documentos que fundamentaram as punições.
Investigações aceleradas lá fora
Os EUA enquadraram PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas em janeiro e, em poucas semanas, apresentaram o dossiê que levou ao bloqueio de ativos e ao veto de transações envolvendo o grupo de Shimada. Para o governo norte-americano, a rede operava a partir da Flórida e de São Paulo, lavando milhões de dólares em criptomoedas.
No Brasil, porém, sequer houve quebra de sigilos bancários do empresário até então, apesar de solicitações feitas na CPMI. O nome de Shimada apareceu pela primeira vez em delação de Vinícius Grisbach, colaborador do PCC assassinado no Aeroporto de Guarulhos em novembro de 2024.
Críticas ao ritmo brasileiro
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam falhas sistêmicas. O constitucionalista André Marsiglia afirma que o país desenvolveu “cultura de tolerância” a crimes de colarinho-branco, contrastando com a resposta rápida dos EUA. Para o doutor em Direito Internacional Luiz Augusto Módolo, é preocupante que informações decisivas cheguem primeiro a Washington do que às autoridades nacionais.
O criminalista Márcio Nunes lembra que o modelo processual brasileiro exige provas produzidas sob o ordenamento local, mas ressalta que cabe ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal buscar cooperação jurídica internacional para obter os elementos já levantados pelos norte-americanos.
Já o advogado Alex Erno Breunig, da Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares, atribui parte da lentidão à histórica falta de efetivo da PF, agravada em investigações complexas como as que envolvem fraudes previdenciárias e crime organizado.
Efeitos das sanções
Pela legislação dos EUA, todos os bens dos sancionados sob jurisdição norte-americana estão bloqueados, cidadãos e empresas daquele país ficam proibidos de negociar com eles, e instituições estrangeiras que mantiverem transações relevantes podem sofrer punições secundárias. Na prática, a decisão pressiona o sistema financeiro global, afetando os alvos mesmo fora do território americano.
Repercussão política
Relator da CPMI do INSS, o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) disse que as prisões confirmam alertas feitos em seu relatório final, engavetado após a comissão não ser prorrogada. O parlamentar responsabiliza PT e partidos da base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo encerramento dos trabalhos.
O caso também envolve Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como articulador das fraudes previdenciárias, mas que não foi incluído na lista de sanções dos EUA. Há apurações, ainda inconclusas, sobre possíveis ligações de empresas dele com o ex-diretor da Oi Fábio Luís Lula da Silva; o filho do presidente não é investigado.
Próximos passos
Com os mandados de prisão em aberto e bens bloqueados internacionalmente, a expectativa é de que a Polícia Federal intensifique a cooperação com o FBI e o Departamento de Justiça dos EUA para localizar os foragidos e rastrear recursos. Juristas ouvidos defendem que o compartilhamento de provas colhidas no exterior seja agilizado para robustecer ações penais no Brasil.
Enquanto isso, a ausência de Shimada reforça críticas sobre a demora em adotar medidas cautelares no país e evidencia a disparidade entre as reações das duas jurisdições diante do mesmo esquema financeiro ligado ao PCC.
Com informações de Gazeta do Povo