Teerã, 3.jun.2026 – A estratégia do Irã de fechar rotas marítimas vitais voltou a ganhar força com a segunda ameaça, em menos de dois meses, de interromper totalmente o trânsito no Estreito de Bab El-Mandeb, no Mar Vermelho. Analistas alertam que a ação, somada ao bloqueio do Estreito de Ormuz iniciado em abril, coloca em risco cadeias logísticas que sustentam boa parte do comércio mundial.
Do Golfo Pérsico ao Mar Vermelho
Em abril, Teerã fechou Ormuz — responsável pelo escoamento de cerca de 20% do petróleo e derivados transportados por mar — e passou a cobrar pedágio de embarcações civis, barrando navios de países ocidentais. A mesma pressão vinha sendo aplicada, desde 2023, em Bab El-Mandeb, onde rebeldes houthis aliados do Irã utilizam drones e mísseis contra cargueiros.
Segundo a Agência de Informações de Energia dos EUA (EIA), 9,3 milhões de barris de petróleo por dia cruzaram Bab El-Mandeb em 2023. Um ano depois, o volume caiu para 4,1 milhões. Antes dos ataques, o estreito concentrava 30% do comércio global de contêineres e 12% do transporte marítimo de petróleo.
Violação do direito internacional
As restrições iranianas nos estreitos violam a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), que garante passagem livre em rotas internacionais. Para o coronel da reserva Paulo Filho, “o interesse coletivo da navegação global tem que prevalecer”, citando possíveis efeitos em outras passagens estratégicas, como Gibraltar ou Malaca.
Cezar Roedel, doutor em Filosofia e mestre em Relações Internacionais, afirma que o bloqueio “quebrou a ideia de livre navegação” e pode incentivar outros países a copiar a prática. No passado, o ex-presidente dos EUA Donald Trump chegou a cogitar taxas na região, mas recuou.
Segunda ameaça em menos de dois meses
O Irã ameaçou fechar Bab El-Mandeb pela primeira vez em 7 de abril, pouco antes de aceitar um cessar-fogo com EUA e Israel. A nova advertência veio em 1.º de junho, após bombardeios israelenses ao Líbano. O estreito de 30 km de largura, apelidado de “Portal das Lágrimas”, separa o Iêmen da península Arábica de Djibuti e Eritreia, no Chifre da África.
Grandes armadores, como a dinamarquesa Maersk, passaram a contornar o continente africano para evitar o Mar Vermelho, acrescentando duas a três semanas nas rotas e elevando gastos com seguro. Atualmente, apenas navios sem vínculos com EUA, Israel ou aliados conseguem cruzar Bab El-Mandeb com relativa segurança.
Tecnologia barata, impacto global
O avanço de drones, mísseis antinavio e minas de baixo custo facilita o fechamento de rotas mesmo por forças assimétricas. Em resposta, Washington mantém navios de guerra a centenas de quilômetros da costa iraniana para impedir a exportação de petróleo do país, tentando asfixiar financeiramente Teerã.
O preço do barril de petróleo chegou a US$ 117 no auge da crise. O Fundo Monetário Internacional projeta queda de 0,3 ponto percentual no PIB mundial este ano se Ormuz permanecer fechado, com estimativas mais pessimistas indicando desaceleração do crescimento global de 3,4% em 2025 para 2% em 2026.
Especialistas alertam que, caso Bab El-Mandeb seja completamente bloqueado, cadeias de suprimentos já fragilizadas podem sofrer novo choque, ampliando custos e ameaçando economias dependentes do comércio marítimo.
Com informações de Gazeta do Povo