A China elevou a própria projeção no continente gelado ao realizar, em abril, a perfuração com água quente mais profunda já registrada na Antártida. A 42ª expedição chinesa perfurou 3.413 metros de gelo, ultrapassando o recorde anterior de 2.540 metros, informou a agência estatal Xinhua.
Pequim apresenta o feito como avanço científico destinado a estudar o clima antigo do planeta, prever mudanças ambientais e ampliar o conhecimento humano. Entretanto, relatos de governos e centros de pesquisa apontam que a iniciativa integra uma estratégia mais ampla para consolidar influência quando as regras atuais sobre exploração de recursos forem revistas.
Tratados sob revisão a partir de 2048
O Sistema do Tratado da Antártida, em vigor desde 1959, restringe o uso do território a fins pacíficos e científicos. Já o Protocolo de Madri, de 1991, proibiu a mineração comercial por 50 anos a partir de 1998. A partir de 2048, qualquer parte consultiva, inclusive a China, poderá solicitar a revisão dessas restrições.
De acordo com relatório de abril do Soufan Center, Pequim investe pesado em infraestrutura polar ― incluindo quebra-gelos que já superam a frota norte-americana ― e em diplomacia para ganhar espaço nas discussões futuras. O think tank ressalta que a região abriga grandes reservas de cobre (12 a 25 milhões de toneladas), ferro, ouro, prata, platina, cobalto, além de petróleo (estimado em 500 bilhões de toneladas) e gás natural (300 a 500 bilhões de toneladas).
Estações científicas com potencial dual
Atualmente, a República Popular da China mantém três bases permanentes na Antártida (ChangCheng, Zhongshan e Qinling) e duas sazonais (Kunlun e Taishan). Outra estação sazonal deve entrar em operação em 2027. Documentos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, divulgados em 2022, afirmam que instalações, equipamentos e pesquisas chinesas têm uso “duplo”, civil e militar, e poderiam fortalecer as capacidades do Exército Popular de Libertação.
Análise publicada em 2023 pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) acrescenta que antenas de comunicação instaladas nessas bases podem captar sinais da Austrália e da Nova Zelândia, países aliados a Washington, além de reunir dados de foguetes lançados nas duas nações.
Interesse geopolítico crescente
Para Murilo Borsio Bataglia, doutor em direito constitucional e pró-reitor da Estácio Brasília, não há ruptura formal do sistema antártico, mas é “natural” que grandes potências se posicionem diante do valor econômico e estratégico do continente em um cenário de mudanças climáticas e competição global. Segundo ele, a presença chinesa reforça a legitimidade de Pequim para influenciar o debate que poderá ocorrer a partir de 2048.
A pretensão declarada do Partido Comunista Chinês é transformar o país em “grande potência polar” até 2030. Ao ampliar rede de pesquisas, modernizar logística e multiplicar ativos na Antártida, Pequim se prepara para disputar espaço em futuras decisões sobre governança, preservação ambiental e eventual exploração de recursos.
Com informações de Gazeta do Povo