Brasília – A piora nos índices de aprovação e a aproximação do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas intenções de voto levaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a adotar, desde o início de abril, uma estratégia de curto prazo para recuperar apoio popular. No centro dessa agenda estão o fim da escala 6×1 – regime que garante apenas um dia de folga a cada seis trabalhados – e a possível revogação da cobrança sobre compras internacionais de até US$ 50, apelidada de “taxa das blusinhas”.
Pesquisa acende alerta no Planalto
Levantamento Genial/Quaest divulgado em 15 de abril mostra Lula com 37 % das intenções de voto no cenário de primeiro turno, contra 32 % de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o senador aparece numericamente à frente pela primeira vez, com 42 %, ante 40 % do petista – empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
No mesmo estudo, 52 % dos entrevistados afirmam desaprovar a administração federal, enquanto 43 % aprovam. O Nordeste segue como principal bastião governista (63 % de aprovação), mas o índice já é inferior ao registrado em levantamentos anteriores. A reprovação atinge 58 % no Sudeste e 62 % no Sul.
Projeto de lei com urgência provoca reação na Câmara
Para abolir a escala 6×1, o governo protocolou projeto de lei com urgência constitucional, recurso que trava a pauta da Câmara após 45 dias. Deputados interpretaram a manobra como tentativa de impor ritmo à Casa. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), passou a defender a alteração por meio de proposta de emenda à Constituição (PEC), colocação que retira do Executivo o poder de veto sobre o texto final.
Mesmo em meio ao impasse, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou no dia 22, por votação simbólica, relatório favorável a duas PECs que fixam jornada máxima de oito horas diárias e 36 horas semanais. O próximo passo é a criação de comissão especial, com expectativa de deliberação em plenário em maio.
O líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), minimizou o atrito: “Há excelente diálogo com o presidente da Casa; o objetivo é votar o tema ainda no primeiro semestre, antes da retração do calendário eleitoral”.
Taxação de importados de pequeno valor em debate
Outra frente de desgaste é a cobrança sobre compras internacionais até US$ 50. Internamente, ministros como José Guimarães (Relações Institucionais) defendem o recuo, enquanto o vice-presidente Geraldo Alckmin diz não haver decisão. A extinção da taxa pode vir por medida provisória, mas enfrenta oposição de parte da indústria e do comércio. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) sustenta que o tributo preservou cerca de 100 mil empregos e fortaleceu a competitividade doméstica.
A discussão é conduzida pela ala política do Planalto, sob coordenação da Secretaria de Comunicação, chefiada por Sidônio Palmeira, e da Casa Civil, comandada por Rui Costa.
Queda de popularidade gera pressa
Assessores presidenciais reconhecem preocupação com o “antipetismo reativado”, descrito pelo cientista político André César, da Hold Assessoria Legislativa. Para conter a erosão de apoio em segmentos de menor renda, o Planalto aposta em medidas de impacto imediato no orçamento familiar, mesmo diante da resistência da equipe econômica e de empresários.
As ações legislativas e eventuais mudanças tributárias devem avançar antes do início oficial da campanha de 2026, considerada decisiva para a tentativa de Lula de conquistar um quarto mandato.
Com informações de Gazeta do Povo