Uma mudança silenciosa no mapa industrial do Mercosul vem ganhando força. Pressionadas pela alta carga tributária e pelos custos operacionais no Brasil, companhias nacionais de setores como têxtil, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos e químicos estão transferindo parte da produção para o Paraguai. Segundo o Ministério da Indústria e Comércio paraguaio, mais de 300 indústrias operam hoje sob o regime de maquila, e cerca de 70% dessas plantas são de origem brasileira.
Por que o Paraguai?
Criada em 1997, a Lei de Maquila permite importar máquinas e insumos sem imposto, desde que a produção seja voltada à exportação. Nessa condição, a empresa paga apenas 1% sobre o valor agregado. Fora do regime, vigora o modelo “triplo 10”: 10% de IVA, 10% de imposto de renda empresarial e 10% de IR para pessoa física. A alíquota combinada fica bem abaixo dos tributos brasileiros, onde só o Imposto de Renda da pessoa jurídica pode chegar a 34%.
Em 2025, o governo paraguaio ampliou o programa para a fabricação de equipamentos eletrônicos e digitais, garantindo benefícios por 20 anos, renováveis. O pacote inclui energia elétrica até 60% mais barata e encargos trabalhistas entre 35% e 40% sobre o salário – no Brasil, o percentual ultrapassa 80%.
Relatos de empresários
O paulista Fabrizio Gudin, de Matão, abriu uma unidade no país vizinho para escapar da carga tributária brasileira. “No Paraguai se trabalha um mês e meio por ano para pagar impostos; no Brasil, são seis”, comparou.
Já o catarinense Jonathan Linzmeyer mudou-se para administrar uma fábrica de esquadrias de alumínio e vidro. Ele aponta benefícios adicionais: “Há segurança jurídica, inflação controlada e retorno de 1% ao mês no mercado de locação de imóveis, tributado em apenas 8%”.
Impacto no setor têxtil
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), 35% das cerca de 200 empresas brasileiras que migraram para o território paraguaio pertencem ao segmento têxtil. Marcas como Altenburg, Karsten e Lupo já operam no novo polo produtivo.
Desafios e perspectiva
O ambiente favorável contrasta com a falta de mão de obra técnica qualificada no Paraguai, que tem população estimada em 6,4 milhões de habitantes. Para Karina Ferreira, presidente da Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai (Cebras), a capacitação profissional ainda é um gargalo, mas a previsibilidade regulatória mantém o interesse dos investidores.
A discussão sobre competitividade ganhou espaço também na pré-campanha presidencial de 2026. Em encontro com empresários em São Paulo, o senador Flávio Bolsonaro disse que o Brasil tem hoje “o melhor ministro da Fazenda do Paraguai”, alfinetando a política econômica conduzida por Fernando Haddad.
Com a possível ratificação do acordo de livre-comércio Mercosul–União Europeia, especialistas avaliam que o movimento de realocação produtiva pode se intensificar caso o chamado “Custo Brasil” permaneça alto. Atualmente, 64% do que é produzido nas maquiladoras paraguaias segue para o mercado brasileiro.
Com informações de Gazeta do Povo