Autoridades do Brasil e de Angola mantêm negociações avançadas para um programa de cooperação agrícola que prevê a cessão de aproximadamente 60 mil hectares na província de Cuanza-Norte a empresários rurais brasileiros. O pacote, estimado em US$ 120 milhões, tem como foco inicial a produção de grãos e alimentos básicos.
Como funciona o acordo
O modelo discutido inclui parceria entre agricultores angolanos e brasileiros, transferência de tecnologia tropical desenvolvida no Cerrado e financiamento de bancos dos dois países. Segundo o governador provincial João Diogo Gaspar, o objetivo é elevar a produção interna, gerar empregos, impulsionar exportações e caminhar para a autossuficiência alimentar.
Pelos termos em debate:
- o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deve financiar a compra de máquinas agrícolas produzidas no Brasil;
- o Banco do Brasil coordenaria recursos via Programa de Financiamento às Exportações (Proex);
- o Fundo Soberano de Angola entraria com 17% do valor total;
- bancos angolanos arcariam com 5% e garantias das operações;
- produtores participantes aportariam cerca de 10% com capital próprio.
Interesse brasileiro
Para o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, a iniciativa abre mercado para máquinas, sementes, insumos e serviços do agronegócio nacional. Em missão a Angola no fim de janeiro, Fávaro citou oportunidades em milho, soja, algodão e proteína animal, além de investimentos em armazéns e sistemas de irrigação.
Mais de 30 produtores brasileiros já manifestaram formalmente interesse em investir no país africano. A Corporação Financeira Internacional (IFC), braço do Banco Mundial voltado ao setor privado, também sinalizou disposição de financiar projetos ligados ao acordo.
Semelhança com o Cerrado
De acordo com o adido agrícola do Brasil em Angola, José Guilherme Leal, parte dos solos angolanos apresenta características próximas às do Cerrado, que passou de área considerada pouco produtiva a uma das principais regiões agrícolas do planeta após investimentos em pesquisa, crédito e infraestrutura.
Concorrência chinesa
Enquanto o Brasil avança nas tratativas, a China já executa investimento de cerca de US$ 250 milhões em até 100 mil hectares para soja e milho, por meio do conglomerado estatal Citic. Diferentemente do formato brasileiro — conduzido por empresas privadas com apoio governamental —, o projeto chinês é fortemente coordenado pelo Estado e atrelado a pacotes de infraestrutura.
Potencial de nova fronteira agrícola
Com cerca de 35 milhões de hectares agricultáveis ainda não explorados, clima favorável e acesso ao Atlântico, Angola é vista como possível nova fronteira de produção de alimentos. O país, que tem aproximadamente 37 milhões de habitantes e pode atingir 70 milhões em 2050, supre hoje apenas 37% da própria demanda interna.
Se confirmado, o acordo com o Brasil busca aproveitar parte desse potencial, somando-se aos esforços de outras nações para desenvolver o agronegócio angolano.
Com informações de Gazeta do Povo