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Colapso do Banco Master desencadeia corrida de R$ 2 bi e leva Grupo Fictor à recuperação judicial

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Brasília – 4.fev.2026 – O fechamento do Banco Master provocou uma reação em cadeia que expôs fragilidades do crédito privado brasileiro e empurrou o Grupo Fictor, gigante do setor de alimentos, para a recuperação judicial.

Pedido de proteção à Justiça

A holding ingressou com o pedido no domingo, 1.º de fevereiro, depois de alegar “crise reputacional” surgida na tentativa de comprar o Master. A oferta de aquisição havia sido anunciada em 18 de novembro de 2025, em parceria com fundos dos Emirados Árabes Unidos que não tiveram os nomes divulgados.

No dia seguinte ao anúncio, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, o que agravou a desconfiança em torno da Fictor. Segundo o advogado da companhia, Carlos Deneszczuk, clientes pediram o resgate de cerca de 70% dos recursos aplicados, o equivalente a quase R$ 2 bilhões.

Impacto nas finanças da holding

A corrida por saques pressionou o caixa das empresas financiadas pelo grupo e comprometeu o pagamento de dividendos e outras obrigações no mercado de capitais. Para enfrentar a falta de liquidez, a Fictor Holding e a Fictor Invest tiveram a recuperação judicial autorizada na terça-feira, 2 de fevereiro. O plano é quitar dívidas superiores a R$ 4 bilhões em até cinco anos, sem descontos.

Estrutura baseada em SCPs

De acordo com Hugo Queiroz, sócio da L4 Capital, a companhia mantinha um braço financeiro que captava recursos de investidores e formava sociedades em conta de participação (SCPs) para aplicar em diversos negócios. Esses veículos não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que aumentou a tensão entre os cotistas quando a crise estourou.

Queiroz avalia que operações desse tipo evoluíram mais rápido do que a capacidade de fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central, abrindo espaço para falhas e fraudes. “O modelo migrou do ambiente público para o privado, reproduzindo vícios do passado”, afirma.

Do crédito público ao privado

Após 2015, com a retração do financiamento subsidiado e a queda nos desembolsos do BNDES, empresas buscaram alternativas em debêntures, CRIs, CRAs, fundos estruturados, securitizadoras e SCPs. Especialista em direito empresarial, Andrea Navarro lembra que SCPs são legais, mas precisam ter projeto definido e oferta restrita. “Quando se promete rentabilidade fixa e captação em massa, o instrumento é desvirtuado”, diz.

Críticas à resposta regulatória

O Banco Central é acusado de ter demorado a intervir no Master. Segundo Queiroz, desde 2024 a autarquia sabia que o banco mantinha pouco mais de R$ 20 milhões em depósitos, embora estivesse sujeito a exigências compulsórias na casa dos bilhões. Ele aponta que o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, e o sucessor, Gabriel Galípolo, foram pressionados e só agiram quando o potencial impacto sobre o FGC já era elevado.

No mercado de capitais, a CVM enfrenta sobrecarga. “O número de fundos e emissões explodiu, e as punições continuam brandas”, afirma Queiroz, que vê multas e suspensões temporárias como insuficientes para coibir irregularidades.

Com a tutela judicial garantida, a Fictor tenta reestruturar dívidas e restaurar a confiança de investidores enquanto autoridades seguem investigando o emaranhado financeiro exposto pela queda do Banco Master.

Com informações de Gazeta do Povo