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Encontro Brasil-Rússia em Brasília eleva risco de atrito com Trump

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O governo brasileiro recebe nesta quinta-feira, 5 de fevereiro, em Brasília, a 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN), suspensa desde 2015. A agenda, liderada pelo primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, e composta por oito ministros, três vice-ministros e empresários do Kremlin, busca retomar projetos bilaterais e ampliar a integração entre os dois países.

A retomada do diálogo acontece em meio à ofensiva diplomática do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para conter a influência de Moscou e de Pequim na América Latina. Fontes do Itamaraty e de consultores de política externa indicam que o encontro pode tensionar a relação de Luiz Inácio Lula da Silva com Washington.

Fertilizantes e pagamentos fora do dólar no foco

Negociadores russos pretendem pressionar pelo status quo da dependência brasileira de fertilizantes vindos da Rússia, considerada moeda de troca para apoio em fóruns internacionais. Também deverá ser discutida a criação de sistemas de pagamento que utilizem moedas locais, alternativa ao dólar que interessa a Moscou e a Pequim.

Declarações de Lula contra a hegemonia do dólar, recorrentes desde 2023, foram usadas no ano passado por Trump para justificar novas tarifas sobre produtos brasileiros. A iniciativa de meios de pagamento alternativos é vista em Washington como tentativa de driblar sanções impostas aos adversários dos EUA.

EUA priorizam a região

A Estratégia de Segurança Nacional americana, divulgada em dezembro de 2025, coloca a América Latina no centro da política externa dos EUA e prevê medidas contra o avanço de potências rivais. Analistas apontam que esse contexto amplia o impacto político do encontro de Brasília.

Para o deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), a aproximação com um país sob sanções ocidentais “empurra o Brasil para o lado dos violadores de direitos humanos”. Já o professor Ricardo Caichiolo, do Ibmec Brasília, afirma que a neutralidade perdeu espaço: “Qualquer movimento que favoreça a economia russa é visto em Washington como apoio a um adversário estratégico”.

Pressão adicional via BRICS

O comando brasileiro no BRICS, bloco que reúne, além de Brasil e Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos, deve acentuar a vigilância norte-americana. Trump já sinalizou a possibilidade de sobretaxar países considerados “antiamericanos” no grupo, sobretudo os que defendem comércio em moedas locais.

Limites econômicos e alertas de sanções

Segundo o cientista político Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí, o comércio bilateral é modesto e concentrado em commodities, o que reduz ganhos estruturais para o Brasil. “A aproximação excessiva pode resultar em sanções e tarifas retaliatórias”, avalia.

Cezar Roedel, mestre em Relações Internacionais pela UFRGS, ressalta que permanecer em “zona cinzenta” entre grandes potências pode gerar custos diplomáticos: “A ambiguidade é interpretada como fraqueza ou oportunismo”.

Eleições de 2026 no horizonte

Especialistas acreditam que o tema de política externa, historicamente secundário em campanhas nacionais, deve ganhar espaço na corrida presidencial de 2026. Para Roedel, a oposição pode explorar o relacionamento com Moscou como prova de “alinhamento com ditaduras”. Gomes, porém, considera improvável ingerência direta russa no pleito brasileiro.

A delegação russa tem chegada prevista para a noite desta quarta-feira (4). Aeronaves de apoio já ocupam áreas reservadas do Aeroporto Internacional de Brasília, aumentando a atenção de autoridades de segurança. O Planalto insiste que o objetivo é “diversificar parcerias” e reforçar o multilateralismo, mas admite monitorar eventuais reações dos Estados Unidos após o encontro.

Com informações de Gazeta do Povo