Curitiba – O empresário Agnaldo Bastos Lima, dono de 4,13% da Ligga Telecom por meio da SR22 Administradora de Bens e Participações Societárias S.A., enviou notificação extrajudicial à operadora e ao controlador Nelson Tanure apontando “fatos graves” na administração da companhia. O documento foi encaminhado na quinta-feira (29) e estabelece prazo até terça-feira (3) para esclarecimentos.
Acusações sobre uso de recursos
Segundo Lima, a Ligga captou mais de R$ 1 bilhão com a emissão de debêntures incentivadas, mas parte relevante do montante não teria sido aplicada em infraestrutura — condição que garante o benefício fiscal desses títulos. A notificação sustenta que mais de R$ 400 milhões teriam sido direcionados a investimentos no Banco Master, instituição liquidada recentemente pelo Banco Central, tornando os valores “virtualmente irrecuperáveis”.
O acionista minoritário afirma ainda que as aplicações financeiras teriam favorecido a BP Participações S.A., controladora da Ligga com 95,87% das ações, também comandada por Tanure. Caso confirmada, a operação poderia caracterizar desvio de finalidade e gerar impactos para investidores, credores e para o Fisco, adverte o documento.
Venda da empresa sem transparência, diz sócio
Lima alega que, desde 5 de dezembro de 2025, solicita acesso a informações sobre as tratativas de venda da Ligga para a operadora Brasil Tecpar, mas não obteve resposta. Ele diz ter sido excluído das negociações, em descumprimento ao acordo de acionistas que prevê direito à informação, mecanismos formais de solução de controvérsias e possibilidade de retirada mediante avaliação das ações.
A cláusula sexta do acordo garante 30 dias para tentativa de conciliação antes de medidas judiciais. O minoritário sustenta que esse prazo não foi observado e ameaça acionar a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Ministério Público se as irregularidades não forem sanadas.
Contexto societário e investigações
A Ligga Telecom surgiu após a compra da antiga Copel Telecom em leilão na B3, em novembro de 2020, por R$ 2,4 bilhões. O negócio foi fechado via fundo Bordeaux Participações, à época controlado por Tanure. Em outubro de 2025, o Bordeaux foi incorporado reversamente pela Ligga, e a participação passou para a BP Participações.
Lima tornou-se sócio da operadora em 2022, ao vender a Nova Fibra Telecom S.A. e receber 4,12% do capital. As ações foram transferidas para a SR22 em outubro do ano passado.
Nelson Tanure é investigado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero por suposta ligação com Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master. O empresário nega qualquer sociedade com o banco e afirma que suas relações com a instituição foram estritamente como cliente.
Sem posicionamento da empresa
Até a publicação desta matéria, Tanure e a Ligga Telecom não haviam se manifestado sobre o teor da notificação.
Com informações de Gazeta do Povo