Brasília — Anotações atribuídas ao ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), sugerem que ele buscou orientar a Polícia Federal (PF) a investigar eventuais falhas e contradições do Banco Central (BC) na fiscalização que antecedeu a liquidação do Banco Master.
De acordo com reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, divulgada nesta segunda-feira (2), o próprio ministro teria elaborado uma lista de perguntas para o depoimento do diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino. Os questionamentos foram enviados ao gabinete da PF acompanhados de observações que explicavam o objetivo de cada ponto.
Foco em prazos e supostas omissões
Entre as anotações, Toffoli destacou a necessidade de identificar datas para avaliar se o BC agiu “dentro do prazo legal” ao decretar a liquidação do banco. “Sem data, não existe tempestividade e, com isso, surgem imediatamente as omissões”, escreveu o ministro.
Outra observação de Toffoli ressaltou que, mesmo após apontar indícios de fraude em fevereiro de 2025, o BC não teria retomado a análise das carteiras do Master. “Aqui aparece a omissão consciente documentada”, anotou.
Nem todas as perguntas foram feitas
Segundo a apuração, apenas duas das questões sugeridas por Toffoli foram efetivamente apresentadas durante o depoimento, conduzido pela delegada Janaína Palazzo e pelo juiz auxiliar Carlos Vieira Von Adamek no STF.
Um dos questionamentos abordava possível demora da autarquia em detectar irregularidades, o que, na visão do ministro, geraria “contradição lógica incontornável”: ou a fiscalização falhou por anos, ou o conceito de atuação tempestiva perderia sentido.
Resposta do gabinete do ministro
Procurado, o gabinete de Dias Toffoli informou que os vídeos das oitivas e da acareação foram liberados e que “as linhas investigatórias ocorrem de acordo com os elementos de prova colhidos pelos órgãos competentes”. Parte do sigilo dos depoimentos foi retirada pelo ministro na semana passada.
Contexto da investigação
O Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, foi liquidado em novembro de 2025 sob suspeita de vender carteiras de crédito sem lastro ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12,2 bilhões. Na data da intervenção, a instituição tinha R$ 127 milhões em dívidas a vencer na semana seguinte e apenas R$ 4 milhões em caixa.
Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, são investigados por suposta fraude. O ex-executivo do Master também é alvo da CPMI do INSS, que apura descontos indevidos em contracheques de aposentados e pensionistas, estimados em cerca de 250 mil contratos.
Depoimento sob críticas
Ailton de Aquino aguardou mais de dez horas para depor no STF e não pôde participar por videoconferência, como solicitara o BC. Convocado inicialmente para acareação, o diretor acabou liberado após prestar esclarecimentos; o confronto de versões ocorreu apenas entre Vorcaro e Costa.
Especialistas e parlamentares, tanto da base quanto da oposição, questionam a condução do processo por Toffoli. Entre as críticas estão o sigilo amplo, a centralização de decisões, a guarda inicial das provas no STF e a realização das oitivas na sede da Corte — prática incomum em investigações da PF.
Com informações de Gazeta do Povo