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Pirâmide de créditos de carbono do Banco Master abala confiança em pilar climático do governo Lula

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Brasília – 29/01/2026 – A revelação de um esquema que movimentou cerca de R$ 45 bilhões em créditos de carbono sem lastro, ligado ao Banco Master e a empresas parceiras, gerou uma crise no mercado brasileiro de carbono, apontado pelo governo Lula como peça-chave da política ambiental.

O caso, investigado pela Polícia Federal, evidenciou brechas na regulamentação do setor justamente quando o país tenta consolidar o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado por lei sancionada em dezembro de 2024. A estrutura completa das regras tem implementação prevista até 2030.

Créditos lastreados em terra pública

No centro da investigação está a Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM). Documentos indicam que a área, pertencente à União e destinada à reforma agrária, foi usada para estimar 168,8 milhões de unidades de “estoque de carbono” – ativo que representa apenas a quantidade de CO₂ armazenada, sem garantia de redução de emissões.

Em agosto de 2022, a Alliance Participações e Investimentos Ltda., controlada por Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel, firmou contrato de opção de compra das terras com o suposto proprietário Marco Antônio de Melo. Pelo acordo, 80% das unidades de carbono ficariam com a Alliance e 20% com o intermediário José Antônio Ramos Bittencourt.

Esses números foram incorporados a fundos administrados pela Reag Investimentos, liquidada pelo Banco Central em 15 de janeiro sob suspeita de receber recursos do PCC. As empresas Global Carbon e Golden Green tiveram patrimônio reavaliado em mais de R$ 45,5 bilhões após a inclusão dos créditos, embora não houvesse certificação internacional ou metodologia reconhecida.

Aval das auditorias

A Alliance afirma que o inventário foi feito pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Em 2020, a Ernst & Young validou a metodologia e fixou o valor unitário em R$ 129,30. Nos anos seguintes, PwC e Crowe revisaram a precificação, elevando os ativos em 32% e levando o total contabilizado a R$ 14,6 bilhões, sem registrar ressalvas sobre litígios fundiários.

Mercado cresceu sem fiscalização

Para o CEO da fintech Start Pay, Carlos Henrique, a fraude reflete “falha sistêmica de coordenação estatal”: enquanto a certificação ambiental escapava ao escrutínio do mercado de capitais, não havia mecanismo rápido para checar o lastro fundiário quando o ativo passou a circular como instrumento financeiro.

A crise estoura num momento em que o Ministério da Fazenda mantém secretaria extraordinária, criada no fim de 2025, para detalhar regras do SBCE e colocar preço sobre emissão de gases de efeito estufa. O objetivo oficial é transformar a redução de emissões em ativo confiável, mas o episódio mostrou que o mercado avançou antes da regulamentação.

CVM apura responsabilidades

Na Comissão de Valores Mobiliários, foi aberto inquérito administrativo. O presidente interino da autarquia, João Accioly Neto, disse que determinou levantamento completo das ações já adotadas e das pendências. Segundo ele, gestores, consultorias e demais agentes podem ser responsabilizados: “Se você participa de operação fraudulenta no mercado de capitais, cai no campo de atuação da CVM”.

O governo e os reguladores agora enfrentam pressão para apresentar resposta robusta e recuperar a credibilidade do mercado de carbono brasileiro.

Com informações de Gazeta do Povo