Roma – Camorra, ’Ndrangheta e Cosa Nostra migraram para as redes sociais e passaram a usar plataformas como TikTok e Instagram para recrutar novos integrantes, principalmente adolescentes, segundo investigações de órgãos europeus e centros de pesquisa.
Relatórios da Global Initiative Against Transnational Organized Crime (GI-TOC) e da Fondazione Magna Grecia indicam que vídeos curtos exibindo carros de luxo, festas, roupas de grife e outros símbolos de status circulam de forma massiva nessas redes. O conteúdo glamuriza a vida criminosa e cria a percepção de que ingressar em grupos mafiosos garante dinheiro fácil e reconhecimento social.
Como funciona o aliciamento
No TikTok, o próprio algoritmo amplia o alcance das postagens entre usuários com interesses semelhantes. Curtidas, comentários e compartilhamentos servem de termômetro para que clãs mafiosos mapeiem os perfis mais engajados. A partir desse ponto, o contato passa a ocorrer por mensagens privadas.
As primeiras abordagens já envolvem atividades ilegais tidas como “simples” e bem remuneradas: vigiar movimentações em ruas específicas, monitorar a presença policial ou entregar pequenos pacotes. O pagamento é imediato e a promessa de ascensão dentro da organização mantém o jovem vinculado ao grupo.
Casos por região
Na Calábria, a ’Ndrangheta utiliza esse método para identificar adolescentes suscetíveis. Em Nápoles, investigações revelam que o clã Amato-Pagano, ligado à Camorra, produz vídeos com motos potentes, festas em vielas e músicas populares para reforçar a ideia de pertencimento. Já a Cosa Nostra, na Sicília, adota postura mais discreta: o último chefe conhecido, Matteo Messina Denaro, acompanhava tendências no TikTok e Instagram enquanto estava foragido, monitorando como a simbologia da máfia circulava entre os jovens.
Preferência por menores de idade
As organizações dão prioridade a adolescentes porque, em muitos países europeus, penas aplicadas a menores são mais brandas. Por isso, tarefas de risco como transporte de drogas, vigilância de pontos estratégicos e apoio logístico acabam delegadas a recrutas com menos de 18 anos.
Expansão para outros países
O modelo de recrutamento digital já inspira grupos criminosos na França, Bélgica, Alemanha, Holanda, Espanha e Suécia, segundo a GI-TOC. O procedimento é o mesmo: propagação de conteúdo que exalta o crime, identificação de jovens que interagem com essas postagens e abordagem direta para atividades ilícitas.
Números que mostram a dimensão do problema
• Bruxelas: 65% dos detidos por tráfico de drogas são menores de idade.
• Holanda: cerca de 15% dos jovens envolvidos em operações nos portos têm menos de 18 anos.
• Reino Unido: redes county lines já recrutaram crianças a partir de 7 anos para transportar drogas.
• Madri: autoridades estimam 1.700 menores ligados a gangues de origem latino-americana.
• Suécia: número de suspeitos com menos de 15 anos envolvidos em homicídios triplicou entre 2023 e 2024.
Autoridades europeias afirmam que o monitoramento de redes sociais e campanhas de prevenção em escolas são as principais estratégias para tentar conter o avanço desse novo método de aliciamento.
Com informações de Gazeta do Povo