O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, divulgou nota pública na noite de quinta-feira (22) classificando como “ataques à Corte” as cobranças para que o ministro Dias Toffoli deixe a relatoria do processo que investiga o Banco Master. O comunicado, elaborado após o retorno antecipado de Fachin do recesso, afirma que o STF “não se curva a ameaças ou intimidações” e associa as críticas à necessidade de “defesa da democracia”.
A pressão por afastamento ganhou força depois de reportagens apontarem possível conflito de interesses envolvendo um resort de luxo que pertenceu à família de Toffoli, citado em transações ligadas ao banco. Parlamentares de oposição e entidades da sociedade civil articulam pedidos de impeachment e de suspeição do ministro.
Nota não aborda possível conflito de interesses, dizem juristas
Para o advogado Leonardo Corrêa, presidente da associação de juristas Lexum, o texto de Fachin recorre à defesa abstrata da democracia sem explicar “qual democracia está em jogo” e evita enfrentar o cerne da discussão: a submissão dos ministros às regras que limitam o poder. A entidade enviou carta ao STF sustentando que o Código de Processo Penal prevê hipóteses de impedimento e suspeição para resguardar a imparcialidade judicial.
Também crítico, o advogado André Marsiglia afirmou que a nota “escancarou a defesa corporativa” e dificultará uma eventual solução técnica, como o afastamento de Toffoli, sem admitir crise ética interna. O cientista político Elias Tavares avalia o retorno de Fachin como uma “operação de contenção de danos” destinada a preservar a imagem da Corte.
Investigação mira fraudes no banco e envolve governador do DF
O inquérito em tramitação no STF apura suspeitas de fraudes financeiras, gestão temerária e lavagem de dinheiro no Banco Master, liquidado pelo Banco Central no segundo semestre de 2025. Na sexta-feira (23), veio a público depoimento do controlador do banco, Daniel Vorcaro, prestado em 30 de dezembro de 2025, que cita conversas com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB-DF), sobre a tentativa de venda da instituição ao Banco Regional de Brasília (BRB).
Vorcaro relatou encontros com Ibaneis entre 2024 e 2025, em Brasília, e disse que as tratativas avançaram com apoio político do governo distrital, mas foram barradas pelo Banco Central. Procurado, o governador confirmou reuniões com o banqueiro, negou ter tratado da negociação e não figura como investigado.
Bastidores apontam possível pedido de suspeição
Fontes ouvidas pela reportagem indicam que circula no STF a possibilidade de o próprio Toffoli apresentar pedido de suspeição para reduzir o desgaste institucional. O retorno antecipado de Fachin, segundo esses relatos, buscaria criar as condições para uma saída negociada.
Analistas consideram, contudo, que a estratégia de vincular críticas à ameaça à democracia pode acentuar o desgaste da Corte. Eles alertam que a insistência em argumentos genéricos pode ser interpretada como tentativa de blindagem corporativa em detrimento da transparência e da autocontenção exigidas de órgãos de cúpula do Judiciário.
Com informações de Gazeta do Povo