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Convite de Trump para conselho sobre Gaza impõe dilema diplomático a Lula

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Brasília – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convidou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a integrar um novo Conselho de Paz para a Faixa de Gaza, iniciativa que, segundo diplomatas e especialistas, pressiona o governo brasileiro a escolher entre aproximar-se de Washington ou preservar o histórico discurso em defesa do multilateralismo.

Escolha de alto custo político

Desde o início do terceiro mandato, Lula procura atuar como mediador em conflitos internacionais. A participação no conselho abriria espaço para questionamentos internos sobre coerência, enquanto a recusa poderia tensionar a relação com a Casa Branca em meio à guerra em Gaza.

O cientista político Marcelo Suano, doutor pela Universidade de São Paulo (USP), classifica o convite como “armadilha diplomática”. Para ele, Lula terá de optar entre “aceitar um fórum que não controla” ou “assumir publicamente o desalinhamento” com os Estados Unidos.

Análise no Planalto

Na segunda-feira (19), Lula reuniu-se com o chanceler Mauro Vieira no Palácio do Planalto para avaliar o documento enviado por Washington. Entre os pontos em estudo estão:

  • objetivos e regras do conselho;
  • lista final de países e lideranças participantes;
  • eventual poder de influência dos membros;
  • custos políticos e financeiros para o Brasil.

Segundo assessores, o presidente ainda não tomou decisão.

Críticas à proposta

Rascunho do estatuto, divulgado pela imprensa norte-americana, prevê debater governança, reconstrução e financiamento da Faixa de Gaza e sugere “abandonar instituições que falharam com demasiada frequência”, numa referência indireta à ONU. A ausência de representantes palestinos e a centralização nas mãos dos EUA motivaram críticas de diplomatas brasileiros.

Para a professora Barbara Neves, coordenadora de Relações Internacionais da Universidade Positivo, a iniciativa “não representa alternativa legítima ao sistema multilateral” e “mina a credibilidade das organizações internacionais”. Já o professor Conrado Baggio, da Universidade Cruzeiro do Sul, vê um “dilema real”: aceitar reduz a relevância da ONU; recusar pode gerar mal-estar com Washington.

Contexto eleitoral

No Planalto, auxiliares reconhecem que o cálculo envolve também o cenário eleitoral de 2026. Suano avalia que Lula tende a priorizar o impacto da decisão sobre a base de apoio interna. A recusa estaria alinhada ao discurso pró-ONU, mas poderia ser interpretada pelos Estados Unidos como sinal de desalinhamento estratégico.

Troca de declarações

Na terça-feira (20), durante evento no Rio Grande do Sul, Lula criticou o estilo de comunicação do presidente norte-americano: “Vocês já perceberam que o presidente Trump quer governar o mundo pelo Twitter?”. No mesmo dia, em coletiva na Casa Branca, Trump confirmou o convite e declarou: “Eu gosto dele e espero que desempenhe um grande papel no grupo”.

Até o momento, não há data para resposta oficial do governo brasileiro.

Com informações de Gazeta do Povo