Brasília – A publicação de uma nota conjunta por grandes instituições financeiras em 5 de janeiro intensificou a mobilização do setor para resguardar a autonomia do Banco Central (BC) diante da disputa travada com o Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada em 18 de novembro de 2025.
No comunicado, entidades como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) declararam “plena confiança” nas decisões técnicas do BC e ressaltaram ser “imprescindível preservar a independência” da autarquia. A reação surgiu após decisões e reportagens indicarem o risco de ingerência externa no órgão regulador e possíveis efeitos sobre investimentos e juros.
Escalada entre BC e TCU
A crise ganhou novo capítulo quando o ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso no TCU, determinou inspeção nas dependências do BC e levou o tema ao plenário da Corte de Contas. A possibilidade de revisão da liquidação do Master, prática inédita em 61 anos de existência do Banco Central, acendeu o sinal de alerta entre bancos e investidores.
Para conter a temperatura, o presidente do TCU, Vital do Rêgo, e o presidente do BC, Gabriel Galípolo, reuniram-se em Brasília em 12 de janeiro. Ficou acertado que o TCU terá acesso integral à documentação que motivou a liquidação, mas não pedirá a “desliquidação” da instituição. O BC, por sua vez, retirou recurso que levaria o tema ao plenário do tribunal. A auditoria técnica deve durar cerca de um mês.
Apoio do governo e manifestação internacional
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, saiu em defesa do BC, classificando o episódio como “possivelmente a maior fraude bancária da história do país”. Paralelamente, Galípolo assinou em 13 de janeiro um manifesto internacional que sustenta a independência de bancos centrais e presta solidariedade ao presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, alvo de pressões políticas nos Estados Unidos.
Fraude e impactos
O Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, teria registrado ativo permanente de R$ 1,7 bilhão, mas concentrava carteiras de crédito avaliadas em R$ 21,9 bilhões, valores que o BC apontou como irregulares. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) foi acionado para ressarcir milhares de investidores, ampliando as repercussões do caso.
Nos bastidores, analistas atribuem a forte mobilização das instituições financeiras ao receio de precedentes que coloquem em xeque a atuação técnica do BC. Conselheiros do mercado destacam ainda a tensão causada pelo material apreendido pela Polícia Federal no celular de Vorcaro, que envolve figuras de diferentes campos políticos.
Perspectivas
Mesmo com o acordo parcial entre BC e TCU, fontes do setor avaliam que a crise permanece em aberto até a conclusão da auditoria. A nota pública de 5 de janeiro, porém, marcou um raro movimento coletivo dos bancos para blindar o regulador monetário, sinalizando o peso que a independência do Banco Central exerce sobre a estabilidade do sistema financeiro.
Com informações de Gazeta do Povo