A Síria voltou ao grupo dos dez países mais perigosos para os cristãos, ocupando a 6ª posição na Lista Mundial da Perseguição 2026, divulgada em 14 de janeiro pela organização Portas Abertas. O país havia ficado em 18º lugar no levantamento anterior.
Entre 1º de outubro de 2024 e 30 de setembro de 2025, o índice de violência registrado pela entidade no território sírio saltou de 7,0 para 16,1 (em um máximo de 16,7 pontos), refletindo uma escalada de ataques, mortes e fechamento de igrejas. A pontuação geral de perseguição subiu de 78 para 90, o maior nível já atribuído à Síria e um dos maiores avanços anuais desde que a metodologia atual foi adotada em 2014.
Violência pós-Assad
O relatório relaciona a intensificação da hostilidade ao vácuo de poder provocado pela queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, quando o grupo jihadista Hayat Tahrir al-Sham (HTS) assumiu o controle do governo interino. Um mês depois, em março de 2025, uma nova constituição provisória centralizou o poder na Presidência e definiu a jurisprudência islâmica como principal fonte de legislação.
Nesse ambiente, radicais passaram a agir com mais liberdade. O caso mais letal foi o atentado suicida contra a Igreja Ortodoxa Grega de Mar Elias, em Damasco, em junho de 2025: 22 fiéis morreram e 63 ficaram feridos. Ao todo, pelo menos 27 cristãos foram assassinados por causa da fé durante o período analisado — número que era zero nos 12 meses anteriores.
Comunidades cada vez menores
A Portas Abertas estima que cerca de 300 mil cristãos permaneçam no país, centenas de milhares a menos que há dez anos. Essa redução os torna mais vulneráveis, sobretudo porque muitos não contam com a proteção de laços tribais, comuns entre muçulmanos sírios.
No contexto tribal, a conversão do islamismo ao cristianismo é vista como traição. Por isso, convertidos e comunidades sem vínculos tribais enfrentam forte rejeição de familiares e líderes locais, segundo o relatório.
Pressão institucional e cultural
Além da violência direta, diversas denominações — batistas, evangélicas e pentecostais — quase não recebem reconhecimento oficial e são alvo de suspeitas por suposta evangelização de muçulmanos ou proximidade com o Ocidente. A histórica Igreja Ortodoxa também é pressionada devido aos supostos laços com o antigo governo.
Na educação, o governo interino vem reformulando o currículo para alinhá-lo à ideologia islâmica, excluindo a história pré-islâmica, reduzindo referências femininas e introduzindo interpretações do Alcorão que descrevem judeus e cristãos como “desviados” ou “condenados”.
Cenário global
No mundo todo, 388 milhões de cristãos — um a cada sete — sofreram altos níveis de perseguição ou discriminação no período coberto pelo estudo, 8 milhões a mais que no levantamento anterior. A proporção chega a um em cada cinco na África, dois em cada cinco na Ásia e um em cada doze na América Latina.
Com informações de Folha Gospel