O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a defender a aquisição da Groenlândia, território autônomo que integra o Reino da Dinamarca. A declaração foi reforçada em 11 de janeiro de 2026, quando o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que Washington estaria disposto a negociar a compra da ilha ártica e não descartou “outras medidas” caso o acordo não avance.
Interesse antigo de Washington
A busca norte-americana pela Groenlândia não é inédita. Em 1867, logo após comprar o Alasca da Rússia, o então secretário de Estado William H. Seward sugeriu adquirir a ilha. Em 1946, o presidente Harry Truman chegou a oferecer US$ 100 milhões à Dinamarca, proposta rejeitada.
Na primeira gestão de Trump (2017-2021) a ideia ganhou novo fôlego, mas não prosperou. Reeleito, o republicano retomou o plano classificando-o como questão de segurança nacional.
É possível comprar território?
Segundo Luís Alexandre Carta Winter, professor de Direito Internacional da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a venda de terras entre Estados é permitida pelo direito internacional, ainda que rara desde o século passado. “Assim como no direito civil, há modalidades de compra, venda ou arrendamento de áreas”, explicou.
Mesmo legalmente viável, Dinamarca e Groenlândia reiteraram que a ilha não está à venda. Especialistas ouvidos pela BBC consideram a transação “extremamente improvável”, ainda que ambos os governos concordassem.
Autodeterminação e trâmites internos
Monica Hakimi, professora da Universidade de Columbia, destaca que qualquer tratado teria de incluir a participação dos groenlandeses no processo de autodeterminação. Joseph Blocher, da Universidade Duke, reforça que a população local precisaria aprovar a mudança.
Nos EUA, o Congresso teria de liberar os recursos e dois terços do Senado precisariam apoiar o acordo. Estimativas indicam custo de bilhões ou até trilhões de dólares, valor que também exigiria aval da União Europeia, outro obstáculo para a Casa Branca.
Compras e cessões que moldaram o mapa dos EUA
Louisiana (1803): França vendeu 1,3 milhão de km² por US$ 15 milhões, dobrando a área do país.
Flórida (1819): Espanha cedeu a região pelo Tratado Adams-Onís em troca de US$ 5 milhões destinados a indenizar cidadãos norte-americanos.
Texas e Cessão Mexicana (1845-1848): O Texas foi incorporado e, após a guerra, México entregou Califórnia, Nevada, Utah, Arizona e partes de Colorado e Novo México por US$ 15 milhões, além do pagamento de dívidas de US$ 3,2 milhões.
Alasca (1867): Rússia recebeu US$ 7,2 milhões pela venda do território, hoje reconhecido pela abundância de recursos naturais.
Ilhas Virgens (1917): Dinamarca negociou Saint Thomas, Saint John e Saint Croix por US$ 25 milhões em ouro.
Outras incorporações, como Porto Rico, Guam e o Havaí, ocorreram no fim do século XIX após conflitos ou tratados, consolidando a atual configuração dos Estados Unidos.
Enquanto a Casa Branca insiste que a compra da Groenlândia reforçaria a segurança nacional, especialistas apontam que arranjos militares já existentes poderiam atender ao interesse estratégico sem alterar a soberania da ilha.
Com informações de Gazeta do Povo