O tratado de livre-comércio entre União Europeia (UE) e Mercosul, negociado há 25 anos, deve ser assinado na próxima semana no Paraguai, criando uma área de mercado com 720 milhões de consumidores e Produto Interno Bruto combinado de US$ 22 trilhões.
Quem ganha e quem teme
Para o agronegócio brasileiro, 99 % das exportações agrícolas do bloco sul-americano terão algum grau de liberalização tarifária. Café solúvel, sucos de laranja, frutas frescas e óleos vegetais despontam entre os maiores beneficiados. O texto também fixa cotas de 99 mil toneladas anuais de carne bovina com tarifa reduzida e tarifa zero para etanol de uso industrial.
Na avaliação do professor João Alfredo Lopes Nyegray, da PUC-PR, o Brasil combina três trunfos raros: grande escala agroindustrial, base industrial diversificada e mercado interno robusto. “A UE busca previsibilidade de suprimentos e diversificação geoeconômica em um ambiente internacional instável”, resume.
Exigências ambientais no centro do debate
Cláusulas de sustentabilidade tornaram-se ponto-chave do pacto. Países como a França usam critérios ambientais para proteger produtores locais e já suspenderam compras de itens brasileiros que utilizam defensivos vetados na Europa. Segundo o consultor José Luiz Mendes, quem tiver rastreabilidade e controle ambiental rigoroso capturará as melhores oportunidades.
Indústria pede fôlego para se adaptar
Enquanto o campo celebra, a indústria nacional busca proteção temporária e apoio para modernizar plantas. O acordo preserva salvaguardas para segmentos sensíveis, como o setor automotivo, que receberá prazos de adaptação e acesso facilitado a tecnologias europeias. “É fundamental garantir instrumentos de competitividade durante a transição”, diz Flávio Roscoe, presidente da Fiemg.
A abertura também deve baratear insumos industriais europeus – hoje 98,8 % das importações brasileiras originadas na UE – favorecendo inovação, mas aumenta a concorrência de vinhos, queijos e lácteos estrangeiros no mercado interno.
Projeções econômicas
Estudo do Ipea calcula alta de 0,46 % no PIB brasileiro até 2040, ou US$ 9,3 bilhões, decorrente do pacto. Cada R$ 1 bilhão exportado para a UE pode gerar 21,8 mil empregos, conforme a Confederação Nacional da Indústria (CNI). A UE já responde pelo maior estoque de investimento produtivo no país: US$ 321,4 bilhões em 2023, segundo o Banco Central.
Trâmites finais
Com o aval dos embaixadores em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve viajar a Assunção para a assinatura oficial durante a presidência rotativa paraguaia. Após esse passo, o texto segue ao Parlamento Europeu e pode entrar em vigor provisório assim que um país do Mercosul o ratificar.
A resistência de França e Polônia permanece, mas perdeu força após a Itália sinalizar apoio. Berlim e Madri lideram o bloco favorável, argumentando que o acordo ajuda a UE a reduzir dependência econômica de China e Estados Unidos, ao mesmo tempo que garante acesso a minerais críticos e alimentos sul-americanos.
O desfecho dessas negociações definirá se o Brasil adotará uma “modernização forçada”, como descrevem analistas, ou se manterá práticas protecionistas consideradas em declínio por especialistas do setor.
Com informações de Gazeta do Povo