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Acordo UE-Mercosul avança: café e frutas ganham espaço, carne e açúcar ficam sob cota

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A Comissão Europeia aprovou nesta sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, a assinatura provisória do acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul. O tratado, negociado desde 1999, promete ampliar o acesso de produtos brasileiros ao maior mercado consumidor do mundo, mas impõe salvaguardas e cotas que limitam as vendas de itens sensíveis.

Setores como café, frutas frescas e sucos terão tarifas zeradas ou reduzidas para alcançar cerca de 450 milhões de consumidores europeus. Já fabricantes de laticínios, vinhos e outras bebidas premium precisarão enfrentar a concorrência direta de fornecedores europeus intensamente subsidiados.

“O pacto favorece empresas que já operam em padrões internacionais e atendem às exigências de sustentabilidade, rastreabilidade e qualidade”, afirma José Luiz Mendes, consultor de Estratégia e M&A da StoneX.

Barreiras, cotas e mecanismo de salvaguarda

Para contornar a resistência de países como França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda, Bruxelas incluiu no texto um dispositivo de salvaguarda: se o preço de produtos considerados sensíveis — como carnes bovina, suína e de aves, leite em pó, queijo, milho, arroz e açúcar — cair 8% em relação ao mercado interno, ou se o volume importado subir 8%, a UE poderá restabelecer tarifas temporariamente.

Além disso, vários itens agrícolas do Mercosul entrarão no bloco dentro de cotas anuais:

  • Carne bovina: 99 mil toneladas (55% resfriada, 45% congelada) com tarifa interna de 7,5% e ampliação gradual. A cota Hilton de 10 mil t passa de 20% para 0% de imposto.
  • Carne de frango: 180 mil t com isenção imediata, metade com osso e metade desossada.
  • Carne suína: 25 mil t, tarifa interna de 83 euros por tonelada.
  • Açúcar: 180 mil t com tarifa zero, incluindo 10 mil t exclusivas para o Paraguai.
  • Etanol: 450 mil t para uso industrial (isento) e 200 mil t para outros fins, com tarifa reduzida a um terço da taxa europeia.
  • Arroz: 60 mil t; Milho e sorgo: 1 milhão de t; Mel: 45 mil t; todos com isenção imediata e ampliação gradual.

Nova ofensiva ambiental

Na quarta-feira (7), a Comissão Europeia proibiu a importação de produtos contendo resíduos de tiofanato-metilo, carbendazim e benomil, pesticidas ainda utilizados em alguns países do Mercosul. No Brasil, carbendazim já é vetado e o benomil deixou de ser aplicado há anos.

No mesmo período, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, propôs acrescentar 45 bilhões de euros aos subsídios da Política Agrícola Comum e reduziu tarifas sobre ureia e amônia, medidas que ajudaram a Itália a mudar de posição e apoiar o pacto.

Próximos passos

Após a assinatura provisória, prevista para a próxima semana no Paraguai, o acordo precisa do aval do Parlamento Europeu. Caso entre em vigor, criará uma zona de livre-comércio que reúne 722 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22 trilhões em 31 países.

Fluxo comercial atual

Mesmo sem o tratado, a União Europeia já é o segundo maior comprador do agro brasileiro. Em 2025, o bloco importou US$ 25,2 bilhões em produtos agrícolas, equivalentes a 14,9% das exportações do setor. Os principais itens foram:

  • Café: US$ 7,3 bilhões
  • Soja: US$ 6,5 bilhões
  • Produtos florestais: US$ 3 bilhões
  • Carnes: US$ 1,8 bilhão
  • Sucos: US$ 1,5 bilhão

Pelo acordo, a UE eliminará tarifas — de imediato ou em até 15 anos — para 91% dos bens importados do Brasil. Em contrapartida, o Mercosul zerará impostos para 95% das mercadorias europeias em prazos que vão de quatro a 12 anos.

Especialistas apontam que café solúvel, suco de laranja, frutas frescas, óleos vegetais, pescados e crustáceos são os maiores candidatos a ganhar margem e competitividade, enquanto laticínios e bebidas finas tendem a sofrer pressão de preços.

O Itamaraty afirma que a combinação de abertura de mercado e proteção a setores sensíveis “reflete o equilíbrio” buscado pelos dois blocos.

Com informações de Gazeta do Povo