Brasília – 5.jan.2026 – O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou nesta segunda-feira (5) uma inspeção urgente para obter todos os documentos que embasaram a liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025. A medida, assinada pelo ministro Jhonatan de Jesus, reacendeu o alerta de risco sistêmico no mercado financeiro e ampliou a pressão sobre a autoridade monetária.
Segundo despacho do relator, a nota técnica enviada pelo BC ao TCU não foi considerada suficiente para explicar o processo decisório que culminou no encerramento das atividades do Master, envolvido em suspeitas de fraude, gestão temerária e venda irregular de carteiras de crédito ao Banco de Brasília. O ministro também admitiu a possibilidade de adotar medida cautelar que, em tese, poderia alterar o curso da liquidação. A decisão foi encaminhada ao ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Mercado reage com cautela
A perspectiva de eventual reversão da liquidação preocupa investidores, bancos e reguladores. Para Sílvio Campos Neto, economista-chefe da Tendências Consultoria, “uma decisão contrária traria implicações amplas e poderia estressar o mercado”, inclusive sobre o pagamento dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs) cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O ex-controlador do Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, está preso desde novembro de 2025 e move ofensiva judicial para anular a intervenção do BC. Em dezembro, o STF antecipou uma acareação entre executivos do banco e representantes da autoridade monetária, quando surgiram versões divergentes sobre a real situação de liquidez da instituição.
Setor se mobiliza em defesa do BC
Diante da nova investida do TCU, entidades que representam 757 instituições financeiras, com apoio do FGC e da B3, divulgaram carta aberta reafirmando “plena confiança” nas decisões técnicas do Banco Central e defendendo a preservação de sua independência. O documento foi interpretado como reação direta à atuação do tribunal de contas.
Para Raul Sena, CEO da AUVP Capital, o BC “se antecipou ao risco sistêmico” ao liquidador o Master. Ele avalia que a inspeção do TCU “envia sinal ruim” e pode gerar instabilidade. Na mesma linha, a advogada Patricia Maia afirma que eventual interferência judicial “gera insegurança institucional sem precedentes”.
Pressão política em torno do relator
Nos bastidores do Congresso, parlamentares do Centrão estariam pressionando o ministro Jhonatan de Jesus, indicado ao TCU por acordo político. Especialistas ouvidos veem risco de o processo se transformar em disputa de influência entre Câmara e Senado dentro da corte de contas.
O relator afirmou que aguardará os levantamentos técnicos antes de decidir sobre possíveis cautelares. Caso a liquidação seja revertida, a responsabilidade pelo pagamento dos depósitos voltaria para o Banco Master, cenário considerado negativo por analistas, que temem corrida para venda de títulos no mercado secundário.
Mesmo sem decisão final, a simples abertura da inspeção elevou a cautela dos agentes financeiros e reforçou o debate sobre os limites da atuação de órgãos de controle em decisões prudenciais do Banco Central.
Com informações de Gazeta do Povo