O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ajustou seu posicionamento sobre segurança pública ao solicitar cooperação dos Estados Unidos durante conversa telefônica com o presidente Donald Trump, na terça-feira, 2 de dezembro de 2025. No diálogo, Lula afirmou que “a gente não precisa usar armas, a gente tem que usar a inteligência” e prometeu “prender os brasileiros que estão aí”, em referência a criminosos nacionais que se refugiaram em solo norte-americano.
Pressões internas e externas
A mudança de tom ocorre em meio à aproximação das eleições de 2026, quando a segurança pública deve figurar entre os principais temas de campanha. Pesquisa Quaest divulgada em 12 de novembro aponta que 38% dos entrevistados consideram a violência o maior problema do país, superando a economia.
Para o cientista político Leandro Gabiati, Lula reconheceu a necessidade de cooperação internacional a fim de demonstrar que o governo atua no combate às facções. Segundo o constitucionalista Alessandro Chiarottino, o avanço de operações norte-americanas contra o narcotráfico na América do Sul amplia a cobrança para que o Brasil adote postura mais firme.
Exigências dos EUA e impasse sobre terrorismo
Washington tem solicitado que organizações como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) sejam classificadas como terroristas, pedido recusado pelo Palácio do Planalto. Mesmo assim, o comunicado oficial após a ligação informou “total disposição” de Trump em cooperar com o Brasil contra o crime internacional.
O investigador aposentado Sérgio Gomes vê contradição no discurso do governo, lembrando que Lula, dias antes, qualificou traficantes como “vítimas dos usuários” e relutou em rotular facções como terroristas.
Fator Venezuela e estratégia geopolítica
A conversa bilateral também ocorreu enquanto os Estados Unidos intensificam ações contra narcotraficantes ligados ao regime de Nicolás Maduro, incluindo o abatimento de embarcações venezuelanas suspeitas de transportar drogas. O especialista em Direito Internacional Luiz Augusto Módolo avalia que Washington trata o narcotráfico como ameaça estrutural, associando Caracas ao fluxo de cocaína rumo ao território norte-americano.
Diplomatas brasileiros admitem que o Planalto sofre escrutínio externo pela proximidade histórica com a Venezuela. Analistas como Marcelo Almeida veem na cooperação com Trump uma tentativa de Lula blindar-se politicamente, equilibrando relações regionais sem romper com antigos aliados.
Críticas da oposição
Parlamentares oposicionistas reagiram ao novo discurso. O vice-líder da bancada, deputado Ubiratan Sanderson (PL-RS), acusou o presidente de “subir no palanque” sem apresentar ações concretas. Já o capitão Alberto Neto (PL-AM) disse que o governo “desmontou políticas de segurança” e agora recorre a “bravatas”.
Para o constitucionalista André Marsiglia, Lula enfrenta dilema: se endurecer demais, pode desagradar sua base; se mantiver posição branda, corre risco eleitoral em 2026.
Tarifas e cálculo político
Além da segurança, a ligação tratou da redução parcial do tarifaço de 40% imposto pelos EUA a produtos brasileiros. Especialistas entendem a movimentação como troca simbólica: colaboração na área criminal em troca de alívio comercial, reforçando caráter pragmático da reaproximação.
Com a segurança pública no topo das preocupações eleitorais e sob pressão de operações norte-americanas na região, o governo brasileiro busca mostrar resultado contra o crime organizado enquanto tenta evitar que facções nacionais sejam enquadradas como terroristas por Washington.
Com informações de Gazeta do Povo