Belém (PA) – Encerrada em 21 de novembro de 2025, a 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudança do Clima (COP 30) frustrou a expectativa do governo brasileiro de transformar o encontro em vitrine do protagonismo ambiental do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A cúpula foi marcada por contratempos logísticos, falhas de segurança, protestos, incêndios e pela ausência de chefes de Estado de países-chave, fatores que, segundo analistas, reduziram a influência internacional do Palácio do Planalto na pauta climática.
Ausência de líderes globais
Estados Unidos, China e outras nações centrais enviaram apenas delegações técnicas, sinalizando descrença na capacidade brasileira de conduzir acordos. O cientista político Adriano Gianturco avaliou que a baixa presença de autoridades de primeiro escalão “escancarou a perda de espaço de Lula no debate climático”. Para o diretor do Ranking dos Políticos, Luan Sperandio, os problemas estruturais de Belém desviaram o foco das negociações e desestimularam a vinda de lideranças.
Falhas de logística e segurança
Antes mesmo da abertura, participantes denunciaram diárias acima do teto definido pela própria organização. Durante o evento houve falta de água em banheiros, preços elevados na alimentação, alagamentos e registro de assaltos a jornalistas. A Polícia Federal identificou ao menos cinco trabalhadores com mandados de prisão pendentes atuando na conferência.
Fogo, protestos e reforço militar
Dois episódios reforçaram o clima de instabilidade. Uma van de delegação estrangeira pegou fogo e, dias depois, um pavilhão da Blue Zone sofreu um incêndio que exigiu evacuação de delegados e jornalistas. Manifestações de indígenas e militantes do PSOL invadiram a mesma área controlada pela ONU, provocando confronto com seguranças. A organização cobrou formalmente mais proteção, levando o governo a instalar cercas de arame cortante e reforçar a presença do Exército.
Anúncios e entraves financeiros
No auge da pressão, Lula anunciou a criação de dez novas terras indígenas que somam 285 mil hectares. Enquanto ambientalistas comemoraram, parlamentares da bancada ruralista acusaram o Planalto de ignorar produtores e gerar insegurança jurídica.
Como carro-chefe, o governo apresentou o Tropical Forests Forever Fund (TFFF), com meta de captar US$ 125 bilhões para remunerar países tropicais que preservarem seus biomas. Até o fim da COP, somente seis nações – Brasil incluído – haviam prometido cerca de US$ 5,5 bilhões. A Noruega condicionou aporte de US$ 3 bilhões a não ultrapassar 20% do total arrecadado, o que posterga o desembolso até que o fundo ultrapasse US$ 12 bilhões.
Metas emperradas e propostas sem consenso
Quatro temas prioritários, entre eles a atualização das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e o aumento do financiamento climático para países em desenvolvimento, ficaram fora do texto principal que será apresentado à ONU. Também não avançaram a proposta brasileira de criar um Conselho do Clima dentro das Nações Unidas nem o plano de elaborar um “mapa para o fim dos combustíveis fósseis” — iniciativa que enfrentou resistência de produtores de petróleo, incluindo a Arábia Saudita. A própria liberação, pelo governo federal, da exploração de petróleo na Margem Equatorial dias antes da cúpula reforçou críticas de incoerência.
Segundo dados oficiais, os gastos federais com a COP 30 chegaram a aproximadamente R$ 787 milhões.
Com informações de Gazeta do Povo