Beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que vivem no Nordeste lideram, de forma proporcional, as contestações contra descontos não autorizados de associações e sindicatos nas aposentadorias. Dados enviados pela autarquia à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS mostram que, dos 5,9 milhões de pedidos de revisão registrados em todo o país, 2.147.653 partiram de moradores da região, o equivalente a 36,4% do total.
Embora número semelhante tenha sido registrado no Sudeste — 2.142.615 contestações, ou 36% —, a discrepância aparece quando se consideram os universos atendidos: o Sudeste possui cerca de 18 milhões de segurados, enquanto o Nordeste tem 11 milhões. Na prática, um em cada cinco aposentados nordestinos questionou débitos, contra um em cada oito no Sudeste.
Panorama regional
As demais regiões somam percentuais bem menores de reclamações: Sul, 619.983 (11%); Norte, 453.536 (8%); e Centro-Oeste, 195.133 (3%). A CPMI aponta que o problema se concentra principalmente em cidades de pequeno e médio porte, com grande quantidade de beneficiários.
Possível impacto político
O cientista político Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), avalia que o escândalo atinge diretamente o eleitorado de menor renda e escolaridade — parte essencial para campanhas presidenciais competitivas. Segundo ele, o efeito eleitoral dependerá da capacidade da oposição de evidenciar o tema, enquanto o governo tenta conter danos por meio de ações judiciais e campanhas de comunicação.
Esquema bilionário
As fraudes envolveram servidores do INSS que autorizaram, sem consentimento dos segurados, débitos em favor de entidades privadas. A prática resultou em desvios avaliados em bilhões de reais.
Relatos de vítimas
Moradora de Jaboatão dos Guararapes (PE), a aposentada Vilma Barbosa descobriu que o Sindicato Nacional dos Aposentados do Brasil (Sinab), com sede em São Paulo, retirou R$ 45 mensais de seu benefício entre 2022 e 2024, totalizando mais de R$ 900. Ela afirma que documentos de outra pessoa foram usados para cadastrá-la.
O Sinab, fundado em 2015, iniciou descontos em novembro de 2021. Apenas em 2023, a entidade reteve R$ 15 milhões dos filiados, chegando a R$ 57,1 milhões até abril de 2025.
Vilma também foi atingida pela Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB), que debitou R$ 77 em dezembro de 2024. A aposentada bloqueou o lançamento e recebeu ressarcimento em junho de 2025. Investigações indicam que a ABCB movimentou R$ 143 milhões entre 2022 e 2024, sendo que 97% dos segurados negaram ter autorizado os débitos. O ex-presidente da entidade, Filipe Macedo Gomes, ficou em silêncio na CPMI após obter habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF).
Outro prejudicado, o contador aposentado Paulo Pereira, 80 anos, relata que a Caixa de Assistência dos Aposentados e Pensionistas (CAAP) retirou R$ 600 de sua conta em parcelas de R$ 75 durante 2024. Apesar de solicitar bloqueio em julho daquele ano, ainda sofreu descontos por mais dois meses, recebendo devolução apenas depois da Operação Sem Desconto da Polícia Federal.
Posicionamento das entidades
Sinab, Amar Brasil e CAAP foram procuradas para comentar as denúncias, mas não responderam até o fechamento desta reportagem.
Com informações de Gazeta do Povo