Uma disputa diplomática reaberta põe Brasil e Paraguai em lados opostos quanto ao futuro do canhão El Cristiano, peça forjada com bronze de sinos de igrejas paraguaias durante a Guerra do Paraguai (1864-1870) e hoje exposta no pátio do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
Na semana passada, representantes de universidades paraguaias e da organização Parlamento e Fé Paraguai reuniram-se no Itamaraty, em Brasília, com a embaixadora Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe. O encontro, articulado pelo deputado Ronaldo Nogueira (Republicanos-RS), buscou avançar no pedido de repatriação do artefato, considerado pelos paraguaios símbolo de resistência nacional.
Proposta de “memorial da reconciliação”
Segundo Padovan, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trata o caso como prioridade. O governo brasileiro, porém, estuda uma solução intermediária: manter o canhão no país, ao lado de canhoneiras brasileiras que permanecem no Paraguai, em um eventual “memorial da reconciliação”.
O Paraguai tenta oficialmente repatriar o El Cristiano há pelo menos 15 anos. Iniciativas anteriores incluíram uma declaração do Senado paraguaio em 2015 e pronunciamentos do presidente Santiago Peña na posse, em 2023. Nenhuma resultou em acordo concreto.
Tombamento dificulta remoção
A movimentação do canhão esbarra em barreiras legais. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1998, o artefato só pode ser retirado da lista de bens protegidos por ato do presidente da República. Mesmo destombado, qualquer doação ao Paraguai precisaria do aval do Congresso Nacional.
Origem e captura da peça
Fundido na década de 1860, o El Cristiano entrou em ação na Batalha de Curupaiti, em 1866. Ao fim do conflito, foi levado como troféu pelas tropas brasileiras. Para Edgar Martínez, professor da Universidad de Misiones e integrante da comitiva paraguaios, o retorno do canhão “encerraria um capítulo doloroso” da história comum entre os dois países.
Enquanto não se chega a um consenso, Brasil e Paraguai avaliam alternativas de troca de itens bélicos e a criação de exposições conjuntas. O desfecho depende, porém, de decisões políticas internas nos dois lados da fronteira.
Com informações de Gazeta do Povo