Brasília – 18/09/2025 – A aquisição das minas de níquel Barro Alto e Codemin (GO) e dos projetos Jacaré (PA) e Morro Sem Boné (MT) pela MMG, subsidiária da estatal chinesa Minmetals, colocou a China na condição de maior fornecedora mundial do metal e intensificou o debate sobre o controle de minerais críticos no Brasil.
A MMG desembolsou US$ 500 milhões pelos ativos da Anglo American, companhia sul-africana de capital britânico. O negócio foi consumado no início do ano, mas ganhou repercussão depois que a holandesa Corex Holding, ligada ao grupo turco Yildirim, relatou ter apresentado oferta de US$ 900 milhões – 80% superior à proposta chinesa.
Disputa chega ao Cade
A Corex solicitou investigação ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), argumentando que a MMG poderá concentrar cerca de 30% do mercado brasileiro de níquel e ameaçar o suprimento para países ocidentais. No fim de agosto, o Cade abriu processo para apurar se as empresas deveriam ter notificado previamente a operação. A penalidade pode chegar a R$ 60 milhões e servir de parâmetro para futuras transações no setor.
Preocupação global
Internacionalmente, a Corex levou o caso à União Europeia, enquanto o Instituto Americano do Ferro e do Aço (AISI) manifestou preocupação ao governo dos Estados Unidos. Analistas veem o episódio como parte do rearranjo geopolítico em torno de minerais estratégicos, intensificado pela disputa entre Washington e Pequim.
Papel do governo brasileiro
Diante de críticas nas redes sociais, o Ministério de Minas e Energia esclareceu que a União não participou da venda e não detém ações da Anglo American. A Constituição prevê que o subsolo pertence ao Estado, mas as concessões podem ser transferidas entre empresas mediante aprovação oficial.
Regulação frouxa atrai capital externo
O ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral afirma que o Brasil impõe poucas barreiras a investidores estrangeiros, diferentemente dos Estados Unidos, que restringem aquisições chinesas em setores sensíveis. Para o advogado especializado em mineração Frederico Bedran Oliveira, a abertura brasileira favorece a diversidade de empresas, mas a falta de capital de risco interno dificulta o avanço de novos projetos.
Terras raras em pauta
Além do níquel, cresce a atenção sobre terras raras, essenciais para ímãs permanentes usados em motores elétricos. Relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) mostra que o Brasil possui a segunda maior reserva mundial, com 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China (44 milhões). No entanto, o país ainda carece de tecnologia industrial para transformar óxidos em produtos de maior valor agregado.
No Congresso, o PL 2780/2024 busca incentivar pesquisa, lavra e transformação de minerais críticos por meio de incentivos fiscais e simplificação ambiental. Outro texto, o PL 2197/2025, propõe exigir beneficiamento interno antes da exportação. Empresários do setor temem que a morosidade legislativa faça o Brasil perder a atual janela de oportunidades.
Projetos como o da Serra Verde, em Goiás, estão entre os mais avançados e podem iniciar operações nos próximos dois a três anos. Especialistas defendem evolução gradual: abertura das minas, expansão para beneficiamento e, em etapa posterior, produção de componentes acabados.
Enquanto o impasse regulatório prossegue, a compra das minas pela MMG consolida a presença chinesa em até 60% do fornecimento global de níquel, intensificando a corrida internacional por matérias-primas estratégicas.
Com informações de Gazeta do Povo