Home / Economia / Investimentos chineses percorrem todos os elos do agronegócio brasileiro, das sementes aos portos

Investimentos chineses percorrem todos os elos do agronegócio brasileiro, das sementes aos portos

ocrente 1756198700
Spread the love

Empresas estatais e privadas da China ampliam a presença em praticamente toda a cadeia do agronegócio brasileiro, passando da produção de sementes e venda de insumos ao controle de terminais portuários responsáveis pelo escoamento de milhões de toneladas de commodities.

Sementes, insumos e tradings

Cofco International, estatal chinesa que atua em 36 países, entrou no mercado brasileiro há cerca de dez anos ao comprar o controle da holandesa Nidera e da Noble Agri. A Nidera, então dedicada à comercialização de sementes de soja e milho, foi revendida em 2018 para a Syngenta, que desde 2017 também pertence a um grupo chinês, a ChemChina.

Outras aquisições incluem a compra, em 2017, das tradings de grãos Fiagril (Mato Grosso) e Belagrícola (Paraná) pela Hunan Dakang, hoje denominada PengDu. No mesmo ano, a chinesa Yuan LongPing High-Tech Agriculture e o CITIC Agri Fund Management desembolsaram US$ 1,1 bilhão para adquirir os ativos de sementes de milho da Dow AgroSciences no Brasil, garantindo acesso completo ao banco de germoplasma nacional.

Logística e portos

Em 2022, a Cofco arrematou a concessão de 25 anos do terminal STS-11, no Porto de Santos (SP). A primeira fase entrou em operação em março, após investimento de US$ 285 milhões. Quando as obras terminarem em 2025, a capacidade deverá chegar a 14,5 milhões de toneladas anuais. Para abastecer o terminal, a empresa comprou 23 locomotivas e 979 vagões, prevendo transportar até 4 milhões de toneladas de soja, milho e açúcar por ano.

No Paraná, o Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP) foi adquirido em 2017 pela China Merchants Port (CMPort) por US$ 935 milhões. Desde então, a movimentação passou de 810 mil TEUs para 1,56 milhão de TEUs em 2024. O TCP integra a rota ESA, que conecta Buenos Aires, Montevidéu e Santos diretamente a portos na Ásia, e, desde abril, outra rota liga Santana (AP) e Salvador (BA) ao porto de Gaolan, em Zhuhai.

A CMPort também fechou acordo para comprar o terminal de petróleo do Porto do Açu (RJ) e, junto com a estatal Cosco e a China Communications Construction Company (CCCC), estuda disputar o leilão do Tecon 10, maior terminal de contêineres projetado para Santos, com investimento previsto de R$ 6,45 bilhões.

Projetos de infraestrutura continental

Embora o Brasil não tenha aderido formalmente à Iniciativa Cinturão e Rota, o governo federal anunciou em 2024 a intenção de alinhar projetos do Novo PAC à estratégia chinesa. Em junho, os dois países assinaram acordo para estudar uma ferrovia que ligará o Porto de Chancay, no Peru — inaugurado pela Cosco em 2023 — ao território brasileiro, cruzando Acre e Tocantins até a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), na Bahia. A própria Fiol contará com recursos do Clai-Fund e da China Railway Engineering Group (Crec).

Novos aportes no campo

Durante missão oficial em maio, empresas chinesas anunciaram R$ 27 bilhões em investimentos no Brasil. A Envision pretende aplicar até R$ 5 bilhões na produção de combustível de aviação sustentável (SAF) a partir de cana-de-açúcar. A Raízen assinou memorando com a hong-konguesa SAFPAC para desenvolver SAF na Ásia-Pacífico, usando etanol brasileiro.

O grupo financeiro REAG Capital Holding e a estatal CITIC Construction firmaram cooperação para recuperar pastagens degradadas. Outro memorando, celebrado entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China, prevê troca de tecnologia e mecanização voltada à agricultura familiar.

No setor financeiro, o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) atua no país desde 2012 e realizou, em 2023, a primeira operação em yuan sem intermediação do dólar. Já o BNDES assinou contrato com o China Development Bank para projetos de infraestrutura e indústria.

Exportações em alta

Em 2024, o Brasil exportou US$ 164,3 bilhões em produtos agropecuários; a China absorveu US$ 49,7 bilhões, ou 30,2% do total — mais que o dobro do adquirido pela União Europeia (US$ 32,2 bilhões). Os principais embarques para o mercado chinês foram soja (US$ 31,6 bilhões), carne bovina (US$ 6 bilhões), celulose (US$ 4,6 bilhões), algodão (US$ 1,7 bilhão), açúcar (US$ 1,4 bilhão) e carne de frango (US$ 1,3 bilhão).

A participação chinesa nas receitas do agro brasileiro era de 2,7% em 2000. Desde então, enquanto as exportações totais cresceram 699%, as vendas para a China saltaram 8.747%.

Novas aberturas de mercado

Desde 2023, Pequim autorizou 11 novos acessos a produtos brasileiros. Destacam-se farinha de aves e suínos (maio/2023), uvas frescas, sorgo, gergelim e subprodutos de pescado (novembro/2024), além de pescados de captura, carnes de pato e peru, miúdos de frango, DDG de milho e farelo de amendoim (abril-maio/2025). No fim de julho, 183 empresas foram habilitadas a vender café, 30 a comercializar gergelim, 46 farinhas de aves e suínos e quatro farinha de pescado.

Com presença crescente em insumos, financiamento, logística e demanda final, o capital chinês consolida sua influência em todas as etapas do agronegócio brasileiro.

Com informações de Gazeta do Povo