Brasília – O envio de destróieres norte-americanos para o Caribe reacendeu o temor de uma ação militar dos Estados Unidos contra o governo de Nicolás Maduro. Reportagem da agência Reuters revelou que três navios equipados com mísseis – USS Gravely, USS Jason Dunham e USS Sampson – patrulham águas próximas à Venezuela sob o argumento oficial de combate ao narcotráfico.
Segundo a mesma apuração, a operação inclui cerca de 4 mil fuzileiros navais, aeronaves de patrulha e ao menos um submarino nuclear, além do grupo anfíbio Iwo Jima, capaz de realizar desembarques em território hostil. Fontes da Casa Branca ouvidas pela Reuters admitem que os navios podem servir de plataforma para “ataques seletivos” caso o presidente Donald Trump autorize.
Escalada da pressão americana
A ofensiva atual começou no fim de julho, quando o Departamento de Estado classificou o Cartel de los Soles – apontado como liderado por Maduro e altos funcionários chavistas – como organização terrorista internacional. Na ocasião, o secretário de Estado, Marco Rubio, acusou o líder venezuelano de comandar “uma organização narcoterrorista”.
Em seguida, no início de agosto, Washington dobrou de US$ 25 milhões para US$ 50 milhões a recompensa por informações que levem à prisão de Maduro. A procuradora-geral Pam Bondi justificou a medida afirmando haver “provas concretas” da ligação do regime com cartéis internacionais e declarou que o ditador “é um dos maiores traficantes de drogas do mundo”. Ainda de acordo com Bondi, a DEA apreendeu somente neste mês 30 toneladas de cocaína associadas ao chavismo e bloqueou US$ 700 milhões em bens de Maduro, entre aeronaves, veículos de luxo e contas bancárias.
Nesta terça-feira (19), a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, reforçou que Trump pretende usar “todos os instrumentos de poder” contra Maduro, a quem classificou como “fugitivo” e “chefe de um cartel narcoterrorista”.
Críticas ao histórico de direitos humanos
Relatório anual do Departamento de Estado divulgado na semana passada apontou agravamento da repressão na Venezuela após a eleição contestada de 2024. O documento cita prisões arbitrárias e perseguição política que já forçaram mais de 7 milhões de venezuelanos a deixar o país.
Em entrevista ao podcast de Donald Trump Jr., o vice-secretário de Estado Christopher Landau conclamou os venezuelanos a reivindicarem sua liberdade e lembrou que a oposição, liderada por María Corina Machado e Edmundo González Urrutia, venceu “massivamente” o pleito, mas foi impedida de assumir.
Apoio republicano e reação regional
Parlamentares republicanos de origem latino-americana defendem a linha dura. A deputada Maria Elvira Salazar (Flórida) afirmou que Maduro “envenena jovens americanos com fentanil” e que “seus dias estão contados”. O senador Bernie Moreno (Ohio) provocou: “Alguém na Venezuela ficará US$ 50 milhões mais rico em breve”.
Imagem: Ronald Peña via gazetadopovo.com.br
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, alertou nesta quarta-feira (20) que uma invasão transformaria a região em “uma nova Síria” e fortaleceria grupos criminosos que operam na fronteira de 2.219 quilômetros entre os dois países.
Resposta de Maduro
Em cadeia nacional na segunda-feira (18), Maduro ordenou a mobilização de 4,5 milhões de milicianos “em todas as fábricas e centros de trabalho” para defender a “terra sagrada da Venezuela”. Ele também acusou Washington de promover uma “narrativa falsa” e chamou a DEA de “único cartel de drogas que atua à luz do dia”.
Cerco multidimensional
Especialistas consultados pela revista mexicana Proceso veem o deslocamento militar dos EUA como ponto crítico de pressão. Ronald F. Rodríguez, do Observatório da Venezuela da Universidade del Rosario, disse não saber se Trump “apenas demonstra força ou se decidirá atuar”. Para a professora María Fernanda Zuluaga, da Universidade de Salamanca, a estratégia americana aponta mais para um “cerco multidimensional” – combinação de sanções econômicas, isolamento diplomático, demonstração de força militar e ações psicológicas – do que para uma invasão tradicional. A recompensa de US$ 50 milhões, segundo ela, visa incentivar “uma traição no círculo interno de Maduro”.
Até o momento, Washington mantém os navios no Caribe e reafirma que todas as opções permanecem sobre a mesa, enquanto Caracas mobiliza suas forças e acusa os Estados Unidos de preparar uma agressão.
Com informações de Gazeta do Povo